As histórias da Vida do Menino Mendigo


Amex

Encontrei Allison depois de muitos e muitos anos. Estudamos juntos no colégio, da quinta até a oitava série. Ela era a mais bela e gostosa menina de toda a cidade, casta e de família tradicionalista, católica fervorosa, tudo o que sempre pedi Deus. O fato de ter a pele alva e rosada, loura legítima, olhos azuis que fariam o mar do Caribe parecer um chiqueiro, me deixava em estado psicótico... eu amava Allison. Tal amor nunca foi, nem de longe, retribuído, eu era pobre, gordo, feio e o pior aluno da classe. Um fracassado total como ela mesma dizia. Perdi a conta das vezes em que me perdia olhando pra ela, sentada logo à minha frente, seu perfume era um tormento diário, as pontinhas dos seus cabelos se esparramavam na minha mesa e eu os acariciava sem que ela percebesse. Sua voz era marcante e eu a ouvia todo o tempo, todas as manhãs e noites, nos meus sonhos, onde ela sempre me dizia "Eu te amo!". Ela se apaixonou por um babaca do terceiro ano quando estávamos na oitava série. Ela suspirava pelo cara a manhã inteira, contando os minutos para a hora do recreio e para a hora da saída. Bonito, forte e ótimo aluno, um bom partido eu pensava. Atleta, jogava no time de futebol e com ele tinha ganho o campeonato intercolegial. Estudava o quanto podia, lia todos os livros recomendados pelo colégio e as apostilas dos professores, todas as suas notas eram bem acima da média das pessoas comuns. Gostava dos sons da moda como axé, funk e pagode, e a mulherada adorava. Eu em contrapartida, era viciado em video-game, só lia livros sobre fantasia, psicopatia e vampiros e era um legítimo roqueiro... era o contrário do que a sociedade pedia, eu era o oposto do cara que ela amava. Depois da oitava série me mudei de cidade, uma cidade grande e lá sofri horrores inimaginados. Solidão, desprezo, falta de sexo e até de beijinho na boca, tudo era dor. Consegui um emprego de faxineiro numa multinacional, que só consegui porque me inscrevi como deficiente mental e com o amparo da lei, fui contratado. Não precisei me preocupar quanto à falsa doença mental, bastava olhar pra mim e já se achava que eu era realmente doente. O que se poderia esperar de um gordo, com cara de filho da puta, brocha , que comia meleca e lambia parede?! Árdua era a vida e árdua foi a secura de sexo que durou 7 anos. Eu a encontrei e me lembrei de como ela mudou a minha vida anos atrás.

Após a minha formatura do segundo grau, fui visitar o resto da minha família no interior, o que para mim não fazia a menor diferença, fui dar uma olhada na cidade para tentar lembrar de tudo o que sofri ali e assim, tentar apaziguar o sofrimento que tinha na cidade grande. Nessas caminhadas de contemplação, vi uma cena que me aterrorizou e fez meu coração falhar uma batida. Vi Allison e o cara do colégio se beijando. Se beijavam com amor dentro de um chevetinho 78 verde-abacate, que devia ser do filho da puta. Suas línguas se entrelaçavam, o brilho da saliva dos dois se misturando, um beijo molhado, mãos acariciando a nuca e as bochechas, abraços, apertos, desejo, tesão, muco... falta de ar. Caio ao chão sem conseguir respirar, minhas costas ficam arqueadas para frente... eu vomito todo o meu jantar. Trêmulo, com os joelhos fracos e suando, não consigo me levantar, tateio o chão e não sinto nada, o mundo acabou, acho que vou morrer... mas me levanto. Alguma força me impele a levantar, a reagir. Sinto-me como um demônio assassino em um campo de batalha. Um flagelo para os homens em guerra, a pira funerária de meus inimigos, sinto-me Ares em pessoa. Allison não me viu, mas ali ela mudou a minha vida.

Vejo-a pela vitrine da loja e logo a identifico, ainda linda e amada em meu coração. Sigo-a durante um tempo e na praça de alimentação, ela se serve de um prato de Caesar Salad e um suco de abacaxi com hortelã e clorofila, se senta logo abaixo da abóbada. Eu me sirvo de um J&B sem gelo com dose dupla, sento-me de frente pra ela e a encaro. Nossos olhares se encontram e, por deus, ela não me reconhece! Ela se sente intimidada pelo meu olhar feroz e conquistador, mas aceita quando peço gentilmente para fazer-lhe compania. Com voz sedutora e, por sorte, trajando o que há de melhor em ternos, com perfume na medida certa, ela não nega o meu pedido para um jantar. Às 20:30 eu a busco na casa de uma amiga e vamos a um ótimo restaurante da cidade, onde fiz reservas para dois no melhor lugar do recinto. Jantamos e comemos um belo brownie de sobremesa. Senti que ela estava caidinha por mim. Ficamos ainda um tempo, tomando vinho e conversando e ela me diz que tinha um cara que ela odiva no colégio e que tinha o mesmo nome que o meu. Eu rio baixinho e revelo o meu verdadeiro eu. Ela fica esbasbacada e me fuzila com perguntas:

- Como ficou com um corpo tão bonito? - ela começa.
- Muita musculação. - respondo.
- E seu rosto, está tão diferente?
- Plástica.
- O carro, esse restaurante caro, bebidas caras, charutos... - fala desenfreadamente.
- Sou presidente de uma multinacional. - cortando-a no meio de seu devaneio.

"Nada disso me importa!" ela diz furiosa, "Quero ir embora agora! Meu Deus que vergonha, estou saindo com o Diogo!!!! Não posso acreditar!!!!!". Ela não parava de falar então resolvi pedir a conta. A conta chega, ela me olha completamente perdida mas seus olhos se fixam em uma coisa que faz com que ela se acalme e passe a me olhar com amor e carinho, ponderando um casamento... ela vê que vou pagar a conta com um America Express Platinado. Uma hora depois, eu gozava na cara dela num motel.



Escrito por Diogo Bulldog às 23h51
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O Melhor Amigo do Homem

Lá estava eu no alto do morro, triste e desamparado. Tinha perdido minha casa num incêndio criminoso ocorrido a alguns meses atrás. O crime fora cometido pela minha ex-mulher que além de me trocar por um bem sucedido executivo, ainda levou meus filhos e junto a um juiz, conseguiu que eu nunca mais pudesse vê-los. No alto do morro choro, a vida não tem mais sentido, perdeu a cor, a vontade se foi, desejo morrer. Penso em morte, em ferragens perfurando a minha pele lentamente enquanto o carro se espatifa no poste, penso na bala atravessando minha cabeça, um furo pequeno de um lado um rombo no outro. Como nos desenhos japoneses, fico esmurrando o chão gritando "Não! Nããããããão... não!" vendo que minhas mãos já são uma pasta de sangue e ossos. A cidade fervilha abaixo de mim, pessoas saem do trabalho e, felizes, vão para suas casas, bares e restaurantes. Compram presentes para as pessoas queridas, eu desejando ser querido por alguém, receber um presente, um afago. Ali acima da cidade, os carros com uma família feliz dentro, os filhos abraçam o pai e dizem que o amam, a mulher acaricia o rosto do marido... minha mulher me deixou, me tirou os filhos e colocou fogo na minha casa. O cansaço me muda a posição, antes de joelhos, agora me encontro sentado, pernas cruzadas, os braços juntando os joelhos. Passam as horas, a noite já ao meio, ainda estou ali, pensando em amputação, em mutilação, no sabor de carne humana. Sempre tive vontade de experimentar, um desejo que nunca vou saciar. Com esses pensamentos, o Cristo me olha com ferocidade, os braços ainda abertos, denotando perdão e aceitação, engasgado me levanto. Seu olhar é muito duro e não consigo me manter sob o seu jugo. Resolvo ir embora, comprar uma arma e me matar. Uma bala no pente, nada mais. Como vou fazer? Colocar a arma debaixo do queixo e atirar de baixo pra cima? Coloca-la na têmpora? Do lado esquerdo, direito? Nada disso importa, eu quero apenas uma bala, nada mais.

Já decidido ao suicídio, me abaixo para pegar meu casaco que sujo, que repousa logo atrás de mim. Dou uma boa sacudida nele para que a lama, ou o exesso dela pelo menos, saia e assim sendo o casaco fique de modo pelo menos aceitável para se vestir. Ao terminar de sacudir, já vestindo o casaco ainda sujo, vejo que dele caiu ao chão um pequeno livreto, de altura maior q a largura, uma cor que, parece vinho ou algo próximo. Me abaixo para pegá-lo e, no instante em que a luz da lua me auxilia na leitura do título da capa, eu solto uma gargalhada. Tomado de inesperada felicidade, deço o morro em direção à cidade. Eu estava no Rio de Janeiro e folheava feliz da vida, o meu Zagat.



Escrito por Diogo Bulldog às 11h33
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