As histórias da Vida do Menino Mendigo


Feliz Ano Novo para Lavoisier

"Nada se perde tudo se transforma!" soavam sinos estridentes que estremeciam o corpo do menino, rufavam tambores com fenomenal clareza, fazendo-o sentir-se enjoado.No meio da multidão, em plena virada do ano, Diogo estava só e triste. Magoado com o mundo que o ignorava, que fazia dele apenas uma fricção no ar, um peso, uma pressão vazia na crosta do mundo...o valor melancólico do zero a esquerda. Lá, na multidão em extase de felicidade, ele viu pessoas sorrirem, viu pessoas bem sucedidas, viu abraços e beijos, afagos e palavras de carinho. A areia dentro do seu sapato o incomodava. Notou a importância daquelas pessoas para o mundo, como elas eram, de fato, parte do todo interligado, como a maré ligada à terra, ligada também, de modo gravitacional, à Lua, bela no horizonte longínquo. Rufavam tambores, soavam sinos.

Vê a sua inutilidade e chora. Uma borboleta bate as asas em um canto do mundo desencadeando uma ecatombe de proporções épicas do outro lado do globo... Diogo chora e o mundo é o mesmo, ele existe, a mudança é nula nos rincões do conhecimento humano. Bater de asas, furacões. A teoria do caos rege o universo de todos, todos têm o resultado de suas ações apreciados pelo ambiente onde vivemos, ação e reação, regência. A lei de Murphy é o mundo do menino que lacrimeja em meio à multidão cega. Se sente uma brisa que não faz voar, os cabelos sedosos de uma bela mulher nas colinas, não movimenta o barco no mar e nem muda as massas atmosféricas, chuva ou não, vento vão. Sente-se a pedra onde ninguém tropeça, estática desde tempos imemoriais quando Deus criou o mundo. Um porduto não comprado, uma história não contada, menino desamparado, vida fracassada.

A contagem regressiva começa e ele baixa a cabeça, o sinos e tambores vão alto dentro do seu corpo.

5... "Lembrem-se, corram um pra cada lado, no plano multi-dimensional, há infinitas retas! Um pra cada lado e se desfaz o fracasso.!" - berrava o General da Células do corpo do solitário e desgraçado Diogo. "Desvencilhem-se desse bastardo, somos células livres, merecemos algo melhor!"

4... O universo infinito, o que vivemos aqui nada significa para a vasta criação. Aqui uns importam para os outros. Diogo se importa com todos, ninguém se importa com ele. Ninguém guarda o enxoval do nenê depois que ele cresce, sempre repassado a alguém, uma retribuição entre os homens. Diogo ama o mundo. A retribuição? O escárnio e a ignorância.

3... "Contarei até três e todos correm! A batalha está ganha, ele é um fracassado escroto que não merece viver! Nós somos células honradas e merecemos algo melhor!" - berrava o General, inflamando o coração das trilhões de células, ávidas por liberdade. "Lembram-se da vergonha que passamos quando ele brochou com aquela mulher?! E aquela vez em que ele chorou tanto de tristeza, que desmaiou no meio da rua e nos deixou torrando no asfalto com o sol em sua força máxima sobre nós?!" - dizia ferozmente. "Infinitas retas! Liberdade! Soem mais altos os sinos e rufem com ferocidade esses tambores!"

2... Suor, lágrimas, coriza, muco, mijo, bosta, caspa, cascas de pele, saliva, sangue... unhas. Tudo estava de saída, murcha a flor que embelezou o mundo. "Que pena, uma flor murcha." - disse a linda donzela. Diogo era um cara murcho que ninguém notava. A flor e o menino, murchos num campo de futebol, ganha a flor, mesmo estando esta, plantada no chão.

1... "Nada se perde, tudo se tranforma!" - o grito de guerra foi dado por todas as células do corpo do coitado. Correram então, em linha reta, uma para cada lado. Os fogos explodem, a multidão delira. Em um átimo desaparece o menino chorão. Alívio no mundo, um ano novo como nunca antes celebrado. Seus sapatinhos e sua roupinha se quedam ao chão, ninguém nota ou estranha. Uns correm para abraçar outros, roupinhas pisoteadas pela multidão.

Passado o frenesi, vem um pobre gatorinho em direção à roupinha e aos sapatinhos já sujos, mas ainda usáveis. O pobre garotinho as pega e pula de felicidade... ação e reação, perdas e ganhos, um menino triste se vai... um menino feliz chega.



Escrito por Diogo Bulldog às 12h11
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