Zero de Maluco
Segunda Guerra Mundial. As trincheiras eram frias, o inverno era por demais rigoroso. Estávamos nas florestas de Bastogne na Bélgica tentando desmantelar uma linha de defesa alemã que cortava o nosso curso de suprimentos. Já tínhamos perdido um quarto do pelotão com "pé de trincheira", um mal que acometia nossos homens, causando necroses e gangrenas, logicamente, amputações. Na fronteira da floresta com uma pequena vila, podíamos ver a movimentação alemã, eram 4 homens pra 1, uma desvantagem mortal. Ao meio do crepúsculo, os canhões 88mm começaram a cuspir seus projéteis, morteiros assoviavam no ar antes de explodirem sob nossos pés, as MP40 não cessavam um segundo sequer. Revidamos com o que tínhamos, Thompsons, M1 Garands e machines BAR. O embate durou aproximadamente 30 minutos, o ensurdecedor barulho do choque dos projéteis com o chão e o grito desesperado dos companheiros feridos me derrubavam, mas, entrincheirado, eu descarregava todo o meu ódio através da minha BAR. Uma calmaria de 5 minutos se instala, hora de recarregar as armas. De súbito, ouve-se novamente os zunidos dos projéteis, hora de começar a rezar de novo. Em meio a todo aquela brutal luta, vejo, no meio do fogo cruzado, uma pequenina criança, recém nascida para ser mais exato. Como ninguém havia percebido a pequenina no meio da neve? Largo de lado a minha querida arma que contabilizava 56 mortes e corro no meio do turbilhão de tiros. Apenas ouço, bem baixo, o meu sargento berrando, "Diogo seu maluco de uma figa! O que está fazendo seu tapado?!". Não dou atenção, já estou perto da pequenina criança... sou atingido na perna. Trôpego, continuo a correr, um tiro no ombro... corro. Uma granada explode a alguns metros de onde estou e sinto os estilhaços adentrarem a minha carne, alguns se pregando suavemente nos ossos do meu braço e da minha cara. Caio no chão e pego a criança. Trago-a para junto do peito e vejo uma boneca extremamente igual a um nenê, levo um chute na cara e por um segundo, perco a consciência.
Ao recobrar a consciência perdida, sinto um calor absurdo. A luz ofusca a minha visão, tenho algo nas mão que alguém tenta arrancar de mim. Forçando a vista, vejo uma boneca extremamente igual a um nenê e ume menina puxando-a pelos cabelos e dizendo "Devolve minha boneca!". Ela chora, tento entender o que está acontecendo. Vejo o Meridien de um lado e o Othon no outro, estou na areia, na praia de Copacabana sendo bicado por 3 malucos. Um chuta a minha perna, um outro o braço e o maior deles a minha cara. "Devolve a boneca da minha irmã seu maluco de uma figa!". Solto a boneca não sem antes arrancar seus bracinhos e decapitá-la com a boca. A menina chora ainda mais alto pela boneca que destruí. O cara maior e mais forte me chuta com mais força. Com a boca toda quebrada eu digo a ele "Acho que sou esquizofrênico!". Um último chute e caio desacordado.
Sinto meu corpo sendo arrastado e porteriormente, deitado no chão. Minha perna dói, meu braço e minha cabeça também doem. Um cheiro fortíssimo de amônia me faz acordar. Ouço gritos e vejo-me em uma tenda improvisada. Os médicos correm de um lado para o outro. Tento entender o que está acontecendo, estou muito confuso. Olho para um lado e vejo o Segundo Sargento Meridien sem as pernas, perdidas na explosão de um morteiro, para o outro lado, vejo o Cabo Othon com o cérebro escorrendo pelo buraco na sua cabeça. "Seu completo louco! O que pensa que estava fazendo?!" meu Sargento perguntava aos berros, furioso. "Tá vendo esses dois aí do seu lado, perderam a vida para te resgatar lá no meio do fogo cruzado!". Respondi de imediato, "Mas Sargento, tinha uma criança lá no meio, mas quando cheguei lá..." tentei contar-lhe a história mas fui interrompido por ele. "E quando você chegou lá, arracou os bracinhos da coitadinha e ainda meteu-lhe os dentes na cabeça!!!! Você é um completo maluco!". Extremamente chocado, tento formular uma resposta, só consigo dizer "Acho que sou esquizofrênico!". Desnorteado e sem a mínima noção da vida e já desejando morrer, roubo a pistola Colt do coldre do Sargento e meto uma bala na cabeça.
Jornal Nacional, a matéria que acabara de passar, falava de um fato um tanto bizarro. Um rapaz chamado Diogo, após roubar uma boneca e ser espancado pelos irmãos da vítima, é levado ao hospital. Lá, tentando se explicar com um Sargento da PM, consegue roubar-lhe a pistola e comete suicídio. Antes porém, ele disse que era esquizofrênico. Descobrui-se que não sofria de nenhum distúrbio psicológico, mas sofrera um trauma recente ao ter perdido a filha no meio de uma guerra de traficantes e de ter seu livro sobre a Segunda Guerra Mundial considerado o maior fiasco literário de todos os tempos.
Escrito por Diogo Bulldog às 14h55
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