As histórias da Vida do Menino Mendigo


XANAX

Eu andava impaciente para um lado e para o outro. Tinha resolvido ser radical nessa entrevista de emprego e contar apenas a verdade, não aguentava mais bancar o ator. Ainda assim, me arrumei todo bonitinho, com a minha camisa da Preston Fields cinza, bem abotoada, para dentro da minha calça creme da Hugo Boss. Meu mocassin refletindo como um espelho. O cinto era bem modesto, desses de camelô, afinal de contas em se tratando da minha pessoa, nada é perfeito. Exalo um leve perfume que, como a minha calça também é da Hugo Boss, um cheiro agridoce que, em qualquer outro homem, levaria hordas de mulheres pra cama... eu estou usando esse perfume e meu pau ainda está guardado na minha cuequinha Don Marco, sendo que esta está extremamente apertada, para esconder qualquer ereção súbita. Eu ando e as pessoas me observam. Vejo elas cochichando e rindo, fazendo piadas que não ouço, enquanto eu agradeço a Deus nessa hora por ser um surdo filho da puta. "Diogo Arneiro!" uma gata chama meu nome com desdém. "Diogo Arneiro!" deixo ela repetir só pra tentar achar alguma pontinha de sensualidade na sua voz, mas sinto o mesmo desdém. "Estou aqui gata!" falo em tom de tristeza, pensando em porque ela chamou os caras antes de mim de modo tão doce e sensual.

Entro no corredor que leva à sala de entrevistas seguindo de perto aquele tesão de mulher, mas me fazendo de desentendido ou tentando provar para mim mesmo que não a desejo, assovio o Tema da Vitória do Ayrton Senna. "Cale essa boca!" ela diz. "Achei que essa música inspirasse as pessoas." eu digo correndo os olhos pelos quadros no corredor. Ela é fria e seca na resposta, olhando pra mim com rudeza dizendo "É uma música estúpida! Entre." Me recolho à minha insignificância e entro na sala. Aceno para o cara na mesa. Ele parece ter uns 24 anos e isso me frustra... eu tenho 26 e ainda tenho que passar por essa vergonha de fazer uma entrevista com um desgraçado mais bem sucedido que eu e que é dois anos mais novo. Cerro os punhos e fico com uma vontade louca de socar a minha própria cara, mas prefiro sentar e me submeter. Mal me sento e o engomadinho me dispensa "Pode sair." Eu ainda podia sentir um certo calor no assento, no que deduzi que o outro candidato ficou ali um bom tempo sentado, provavelmente fazendo a porra da entrevista. "Mas porque, eu mal sentei." uma voz triste sai de mim. "Não gostei de você, você é gordo, careca e pelo que vejo aqui tem 26 anos e está desempregado a um ano e meio. Se ninguém te quis antes, porque a minha empresa vai querer. E pelo modo como você sentou, vejo que usa uma cueca bem apertada para segurar uma ereção fora de hora. Isso reflete instabilidade emocional e insegurança, quem usa cueca apertada é fracassado por natureza. Rua! Saia já! SEGURANÇAS!", incrível notar que a voz dele foi fade on do início até o final explosivo. Agarrado pela gola da camisa, sinto os botões do meu Preston Fields saindo voando como pipocas na panela, sinto ela saindo de dentro da minha calça. Arrastado até a sala de espera, sou jogado em uma poltrona. Risinhos baixos e uma lágrima na minha face. Saio de modo melancólico, andando como um coxo porque bati com o joelho na quina da poltrona quando fui jogado. Estou no vigésimo andar do prédio e chamo o elevador. O primeiro que pára vem cheio... o segundo cheio, o terceiro tinha lugar mas fizeram uma barreira para eu não entrar... o quarto veio vazio, ninguém nele, mas eu estava tão triste que não consegui me mover e ele se foi. O limpador de vidro dependurado do lado de fora do prédio diz "Hey, você! É proibido usar drogas aqui dentro!", enquanto ele descansa no parapeito da janela devidamente aberta. Olho pra ele ferozmente e falo "Mas eu não usei nenhuma porra de droga! De onde você tirou isso seu inválido?!". "Reconheço gente drogada e você é um! E inválido é você, desempregado de uma figa!", o mais irritante é que ele fala isso rindo e tirando o chapéu, me mostrando uma vasta cabeleira na qual passa a mão como se para afirmar para mim que são de verdade.

Resolvo descer pelas escadas, mas meu joelho dói muito e já no décimo quinto andar paro pra ir de elevador mesmo. Aperto o botão do elevador e espero. Dois pezinhos vem descendo pelo lado de fora do prédio e quando o dono desses pezinhos para no meio do andar, tira o chapéu e começa a passar a mão no cabelo. Eu começo a fazer gestos obsenos para aquele filho da puta. Fazendo caras e bocas e mostrando a bunda, xingando todos os nomes possíveis. Nesse momento, uma mulher se aproxima de mim e me pergunta "O que você está fazendo seu retardado mental?". "Aquele desgraçado ali fica me zuando, alisando o cabelo, se aproveitando dessa deficiência escrota que tenho na cabeça!" falo em completo estado de desvairo. Ela se afasta, agarrando a bolsa como se eu fosse roubá-la, e antes de descer pelas escadas como se tivesse visto um monstro grita apavorada "Mas o prédio é todo espelhado e a prova de som. Ele não vê nada e não escuta nada!". Completamente atônito, vou até a janela e me certifico de que era verdade mesmo o que ela disse. Eu abro a janela. Ele se assusta e ao me ver, começa a dar pequenos puxões no cabelo que estava alisando com as mãos. "Já percebi que são de verdade!", o elevador chega e me viro para entrar, não sem antes ouvir a escrachada risada do limpador de janelas. O elevador está cheio, parece que levará uma eternidade para ele chegar ao térreo. Noto que as pessoas estão insatisfeitas por eu ter entrado no elevador, minha grande massa corporal, empurra as pessoas lá atrás. Quando o elevador para no sétimo andar, as pessoas gritam em uníssono "LENNY KRAVITZ!!!!" e assim que a porta do elevador vai fechar, eles me empurram pra fora. Caio no chão, aos pés de uma pessoa que, pisando na minha cara com raiva, sai correndo na direção das escadas, abraçada à bolsa como se eu fosse roubá-la. Fico um pouco no chão esperando dar tempo daquela maluca descer as escadas para que eu possa descer por lá também. Passado esse tempo me levanto e limpo a minha camisa. Consigo descer as escadas sem problemas. Demoro um pouco porque estou coxo. Ao chegar na portaria, sou agarrado pelos seguranças e agredido de forma violenta e gratuita. Todas as pessoas cuspindo em mim e me olhando com severidade. Me chamam de drogado e louco, vejo o limpador e a mulher da bolsa com dedos acusadores. Me chamam de "O gordinho careca da cueca apertada!" lá está o rapaz de 24 anos. Outros falam em voz mais baixa para eu não ouvir de propósito e nessa hora reclamo a Deus por ser um surdo filho da puta. Por fim, todos gritam em uníssono "LENNY KRAVITZ!!!!!" e me colocam pra fora do prédio.

Eu me recomponho e sem olhar pra trás vou comprar uma água. No bolso da calça pego dois comprimidos dentro de uma caixinha e tomo-os de uma vez. Espero que faça efeito e vou em direção a outro prédio para outra entrevista. Mas antes passo perto de uma lixeira e jogo fora a caixinha de Xanax.



Escrito por Diogo Bulldog às 12h56
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No final, eu sempre me fodo! - Final Round!

FINAL ROUND

Quando faço um sinuosa curva que beira o morro, vejo mais a frente os pequenos muros que cercam Cerne Abbas e a torre da igreja se sobressaindo acima das outras construções. Minha casa é do outro lado da cidade, mas atravessarei-a pelo meio afim de ganhar tempo. Chegando no portão, sou reconhecido e este é aberto. Sem falar com ninguém corro em direção à minha casa. Salto do cavalo ainda em movimento e caio no chão, em completo estado de desespero caótico vou correndo em direção à casa. Vejo Chloe na porta. Ela me parece preocupada. Vou ao seu encontro e a abraço. Choro compulsivamente, tremo e sinto calafrios dos pés à cabelça. Já não consigo enxergar nada com clareza. Coloco Chloe no chão e pergunto por sua mãe. "Ela está lá no quarto com um homem que ela mandou a serviçal chamar." Desfaleço no chão, joelhos sem força e mãos no tapete de palha. "Você está bem papai?" ela me pergunta em tom tranquilo. "Chloe aceita a traição da mãe!" penso descontrolado. Nem abro a porta, eu a arrebento por inteiro. Ao entrar na casa, ouço gemidos altos, quase gritos. A voz de um homem diz "Mais forte! Mais forte! Estamos quase lá!". Pego uma garrafa de vinho e a entorno para dentro. "Allison me traindo!!!!" falo baixo... "Chloe aceitando a traição!" completo... estou morto e ainda não sei. O gemido se intensifica e o homem fala ainda mais alto. Saio da casa em completo estado de topor.

Não suportaria ver a cena, morreria no ato. Quão vexaminosa seria a minha morte se ela assim procedesse. Procuro Chloe, mas ela sumiu, com certeza com medo da minha reação. Tirando a armadura de couro, caminho para o riacho. Tiro a espada. Penso nos bons momentos e tento apagar todo aquele pesadelo, penso nos olhos de Allison pela manhã, na sua voz doce me dando bom dia, penso no seu perfume e em como se vestia lindamente com longos mantos de seda e cetim para as festividades cristãs. Desolado, apoio a espada no chão e a ponta afiada coloco no meu abdômen rijo. O riacho me reservou momentos de muita alegria com a minha filha no verão, penso nela com carinho, tentando esquecer que de certa forma, me traiu em um último momento. Esqueço esse detalhe e lembro-me de seu sorriso nos meus braços quando ainda era pequenininha, de quando me chamou de "pápa" pela primeira vez. Solto o peso do corpo e a espada rasga a pele quase sem resistência. Ela desvia nos orgão e pega na espinha... solto um gemido e forço meu corpo... ela desvia novamente e sai por tás. Caio no chão com os olhos virados para nossa casa. Vejo as brincadeiras que fazíamos, os momentos em que Allison e eu passeávamos pelo quintal, ou quando fazíamos amor no riacho... minha mente clareia e em um último suspiro de vida, vejo o padre Ernest, um parteiro famoso na região e que fez inclusive o parto de Chloe, sair pela porta e levantar os céus uma linda menininha, agradecendo a Deus por ela ser linda e ter saúde. Abaixando-a ele se dá conta de mim. Tento levantar o braço, mas não consigo... olho bem a minha pequena filhinha, sei que é minha, sinto que é minha... foi a última coisa que meus olhos viram.



Escrito por Diogo Bulldog às 11h24
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No final, eu sempre me fodo! - Parte 3

PARTE 3

Surgindo pelas bordas da cunha, a uma distância segura, eles atiravam e muitos dos meus homens caíram. Muitos cavalos tiveram o mesmo destino. Forço a marcha até os homens em terra, tentando desesperadamente criar um corredor para que o resto dos cavaleiros sigam, mas falho. Por não estar com insígnias de capitão não fui tomado como o alvo primal. Em completo desespero, pulo do cavalo e caindo, decepo a cabeça de um garoto. Giro a espada, esquerda, direita, aparo golpes e mato sem parar. Notando o meu estado de selvageria, o meu frenesi descontrolado, os inimigos que me rodeiam se afastam em completo estado de terror. Pouco tempo depois, no meio daquele inferno caótico, encontro Bateman e juntos, tal qual Ares e Heitor na guerra de Tróia, devastamos nosso inimigos sem dó. As bestas vão fazendo as suas vítimas e tento dizer aos meus irmão que se protejam dos tiros e ataquem quando estiverem recarregando. É necessário um certo tempo para recarregar uma besta e nesse momento, eles são peças fáceis para se matar. Muito ouvem e muitos não, muitos se ferem e morrem outros poucos vivem para contar a história. Já com o corpo vermelho de sangue, com os músculos doloridos e muito ferido, caio de joelhos ainda a lutar. Os sons do choque de metais vão diminuindo, os gritos vão morrendo, já não luto. Levantando-me com muito esforço e gemendo de dor. Olho o campo de batalha e tudo o que restou foi corpos, irmãos e inimigos de braços dados, abraçados uns aos outros no chão empoçado de sangue e víceras. No horizonte vejo os últimos saxões a fugirem, eram 6 pra 1 e ainda assim foram derrotados. Valorosos homens morreram pelo Rei e pela pátria... eu vivi por Chloe e para, uma vez mais, beijar Allison e dizer que a amo. Limpo o sangue do rosto e peço para que Bateman reúna todos os que restaram. Cada um que chega perto de mim, se ajoelha em reverência e em cada um dou um fraterno abraço e agradeço a confiança. Todos juram lealdade a mim, como já juraram em outra oportunidade. Peço aos homens mais descansados que recuperem alguns cavalos que se debandaram. Feito isso, despacho 6 desses descansados homens para cidades e castelos vizinhos com intruções para que recebam feridos e mortos e ainda que, usem seus próprios mensageiros para que a notícia dessa bestial batalha chegue aos ouvidos do Rei. Nada é dito sobre a minha pessoa, todos recebem o mérito da vitória. "Quero ir pra casa Bateman, estou exausto. Minha cidade fica a 2 dias de viagem a sudoeste daqui. Já estou a 8 meses fora de casa, preciso voltar." digo triste e quase sem voz. "Irei eu e mais 3 a escoltá-lo. Depois de Cerne Abbas, seguiremos para o norte, até Sherbone e lá esperaremos novas ordens do Rei. Como são cidades perto uma da outra, meio dia de viagem acredito, manterei-o informado." me garante Bateman. "Que assim seja, meu nobre."

Partimos no dia seguinte na aurora, ainda fraco, não consigo subir no cavalo. Olho para o belo animal, o mesmo que com coragem e determinação, me carregou no campo de batalha. Está ainda inteiro como se por milagre. Acaricio a sua crina e ele relincha baixinho, com a ajuda de meus irmãos, consigo subir. Sem armadura e escudo, apenas com a espada e uma leve armadura de couro duro, fico leve para o o cavalo, este também se a sua pesada armadura que desmontada, juntamente com a minha bagagem, é levada por outro cavalo. "O dia está bom, acho que não vai chover. Vamos tem uma boa estrada para casa." digo para mim mesmo. Apresso Bateman e os outros, quero chegar logo em casa, comer uma boa comida, brincar com minha filha e beijar minha mulher. Espero que outra batalha demore a acontecer, agora não sinto a menor falta de guerrear, mas sei que a saudade virá com o tempo. Seguimos juntos, quase todos os homens em direção ao sul até a bifurcação da estrada. A maioria seguirá mais para sul em direção a Southhampton e outros para Postmouth. Bateman e os outros 3 homens, Digory, Penhill e Lynehan, seguem comigo a oeste. Seguimos até a vila de Verwood mais a sudoeste e lá passamos a noite. Conseguimos nos instalar no celeiro do gestor da vila, um homem humilde para o seu posto e extremamente bem educado, algo raro por essas bandas que se encontram longe dos grandes centros. Nos acomodamos na palha e os cavalos descansam no pequeno pasto ao lado do celeiro, onde há bastante grama e capim para comerem. Sou assombrado por pesadelos durante toda a noite. Allison me traindo, Chloe aceitando a traição da mãe, estupro, morte lenta e dor... acordo de súbito com péssimo pressentimento. Meio dia de viagem a cavalo me separam de Cerne Abbas, os outros ressonam ao meu lado. Faço uma reverência a todos eles, em silêncio e saio em disparada com dois cavalos. Acho que o meu grande campeão consegue fazer a viagem toda, mas para o caso de ele cansar, levo outro. Deixo no outro cavalo, apenas a minha armadura e meu escudo e alguma provisão de emergência. Os primeiros raios do sol ainda nem aparecem no céu, mas a manhã se aproxima. Alardeado, forço ao máximo a cavalgada. No meio do caminho, paro em uma pequena ponte. Uma pausa de um quarto de hora, apenas para beber um pouco de águra e descansar. Quero estar em casa antes do meio do dia



Escrito por Diogo Bulldog às 12h07
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No final, eu sempre me fodo! - Parte 2

PARTE 2

As cornetas soam, escudos se fecham com escudos, o cheiro acre de suor e metal levantam a moral dos homens que desejam misturar a esse aroma, o cheiro ferroso do sangue. Começamos a marcha, passo atrás de passo, cadenciado milimétricamente, denotando a disciplina rígida dos combatentes. Tentando tomar-nos de assalto, os bárbaros começam a correr enfurecidos para cima de nós. Paramos e compactamos ainda mais os escudos. Vejo homens vindos em nossa direção leves e com pequenas adagas, penso ser um suicídio coletivo mas logo reparo o porquê de estarem tão leves. "Arqueiros! Arqueiros! Ataquem sem piedade! Esvaziem suas aljavas agora!" grito de modo desesperado, fazendo sinais de ataque para eles caso não me ouvissem. Não sou capitão e nem tenho posto para dar ordens, mas vejo que meus superiores não repararam no que está por vir. Quase a totalidade dos meus irmãos de armas que compõem o meu pelotão me devem a vida, pois sozinho já os salvei de grandes enrascadas. As flechas zunem pelos ares e caem como uma chuva mas, numerosos como são, ainda avançam sem parar. As outras unidades ficam atônitas não entendendo o porquê de as flechas estarem sendo atiradas. Meu capitão está longe e o chefe do meu grupamento, Damien, está lá por indicação de um Duque, mas não tem moral para dirigir uma unidade em batalha. Grito para os cavaleiros que ficam entre os pelotões que dêem ordem para os arqueiros atacarem, mas nada acontece. Quando os bárbaros já estão bem próximos, vejo Damien tremendo e com olhos esbugalhados como se estivesse a ver a morte de perto, grito novamente bem alto em tom de desespero "Formação tartaruga! Formação tartaruga! Primeira fileira de lanceiros cobrindo o espaço entre os escudos na formação e as duas restantes por cima!". As ordens são seguidas a risca e com enorme desenvoltura, antes porém de se fechar a formação, vejo as outras unidades ainda com a perede única na frente, um erro que custará a vida de muitos e enfraquecerá a nós na batalha. Leves e com pequenas adagas, dispostos a morrer e terem seus nomes glorificados em canções os bárbaros pulam por cima dos escudos, cada um fazendo uma vítima ou duas. As pequenas adagas facilmente penetram nos vãos de armaduras e helmos, como abutres sobre a carniça eles voam por cima dos escudos.

A formação tartaruga, que consiste em formar uma outra parede de escudos acima de nossas cabeças, juntamente com a formação principal à frente, nos protege dos bárbaros que tentam pular por cima. Já com um número diminuído pelos arqueiros, mas ainda assim muitos, eles pulam sobre nós e, caindo sobre a formação, são trespassados facilmente pelas lanças, já que estão apenas com roupas de couro ou pele. Incito que aguentem o peso acima de nossas cabeças e que estoquem entre os vãos na parede quando possível, afim de matar o máximo possível. Os lanceiros sabem o que fazer e empurram os corpos de cima da formação a fim de aliviar o peso e isso acaba criando uma pequena barreira a mais para os bárbaros que vierem mais atrás, os corpos de seus amigos e familiares. Impossível ver o que ocorre nos outros locais da batalha. Ouço o relinchar dos cavalos, berros e ordens desconexas. O tilintar de armas com armas demonstra uma briga selvagem. Sentindo que não mais caem sobre nós bárbaros pululantes, ordeno que voltemos a formação original e quando levanto a cabeça, meu coração gela. Muitos de nós, de outros pelotões, estão feridos ou mortos, suas paredes de escudos completamente abertas e agora o restante dos inimigos, com armaduras, machados e maças, bestas e fundas, estão a 9 flechadas de distância, correm em nossa direção para se aproveitarem da brecha. Capitães mortos mas ainda temos unidade. Saindo da formação, ordeno que um cavaleiro tome o meu lugar e eu tomo o cavalo dele. Assim que tenho uma visão de cima, ordeno em voz alta que todos os pelotões se agrupem, sem espaços e que todos os cavaleiros se unam a mim. Designo Bateman para chefiar a parede e os homens. A colina à esquerda e o monte onde Stonehenge se encontra protegerão os flancos. Dar a volta pelo monte demandaria tempo e o inimigo, sabendo disso, resolve mesmo atacar de frente. Tenho apenas mais dois minutos para estruturar tudo e ali mesmo já mando os arqueiros atacarem. A fromação da parede compacta está quase perfeita e nos lugares onde há sobras coloco cavaleiros. Vendo que todos estão prontos, eu e os cavaleiros restantes damos a volta no monte, com cavalos é bem mais rápido. Assim espero pegá-los pelos flancos e, diminuindo a atenção de uma boa parte dos saxões, os escudos se abram e a batalha aberta comece.

Somos 90 cavaleiros, um número ínfimo, mas ainda assim uma força poderosa. Enquanto damos a volta no monte penso na formação que ordenarei. Cunha, entrando no ventre da massa inimiga como uma flecha gigante, pisoteando, estocando e matando... ou entro com tudo com uma formação em linha, esperando varrer de ponta a ponta os inimigos. Pondero os prós e os contras de cada formação e virando o monte, a leve descida me dá uma visão aterradora, são muitos inimigos a mais do que havia pensado. Já posso ouvir o barulho ao longe denotando que a briga já está ferrenha nos escudos que deixei para trás. Viro para os cavaleiros e falo com alta e boa voz "Quero uma formação em cunha. Eu encabeço, dois cavalos nos meus flancos e cada cavalo atrás de mim deve ser flaqueado da mesma maneira até o fim. Lanças nos perímetros e arcos no meio, portanto quero os melhores em suas posições. Dentro do campo inimigo, espadas e machados descendo sem piedade.". Assim que termino, construimos rapidamente a formação. Olho para trás e vejo todos prontos, penso em meus amores uma última vez e com o meu grito de guerra, oredeno o avanço. Vou berrando o grito de guerra até meus pulmões explodirem, meus inimigos se viram para mim e toca uma trombeta. Fico aliviado quando vejo que muitos deles se viram para o lugar de onde os cavalos surgem. Na linha de escudos, vejo nosso estandarte, um lindo dragão verde com um leão morto sob as patas. A linha se abre e o homens saem como demônios. Arqueiros começam a atirar suas flechas de cima dos cavalos, tomando o devido cuidado de não atirarem na parte frontal da batalha. Entramos com tudo dentro dos limites do inimigo, vejo besteiros, mas ainda assim avanço. O robusto cavalo atropela e esmaga com as pesadas patas as suas vítimas, eu sou o cavaleiro da morte, o terror alado das profundezas, mato sem piedade. Ignorar os besteiros foi o meu maior erro.



Escrito por Diogo Bulldog às 11h45
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No final, eu sempre me fodo! - Parte 1

O campo de batalha estava cheio, as hostes se posicionavam a leste e a sul. Sempre achei as planicies lugares muito bons para se guerrear, o chão firme permite passadas mais confiantes e o manejo da espada e do escudo ficam mais fáceis e isso apazigua o meu coração. Salysbury é um antigo santuário druida, acima de nós em um monte que parece brotar da terra, vemos o estranho complexo monolítico chamado Stonehenge. Alguns de nós fazem reverências, outros fazem o sinal da cruz como se para afastar o mau agouro. Eu nada faço, guerreio pelo dinheiro, pela fama e pela glória e ao meu Rei devo a minha honra. Meu amor reservo à minha esposa Allison e à minha filha Chloe devoto a minha vida. Empunho uma linda armadura que ganhei como presente pelas minhas proezas na batalha a espada na bainha um espólio de guerra e o escudo de grande porte, com uma tripla camada de couro duro com uma fina folha de ferro na frente e internamente, revestindo o couro, salgueiro queimado, duro como o próprio ferro. O escudo era de tal modo pesado que somente eu em toda a infantaria suportava o seu peso. Não montava e nem fazia uso do arco, eu e meus irmãos em armas éramos a primeira linha de batalha, a parede de escudos que tudo suportava, segurando os inimigos para que as flechas se abatessem sobre eles como uma chuva de setas do próprio Apolo e para que as lanças se tornassem uma extensão das mãos de Cerridwen. Agrupados na frente de todo o batalhão, estamos todos felizes e ansiosos pelo cheiro de sangue, pelo barulho ensurdecedor do choque de armas contra escudos, do grito do inimigo a perecer e finalmente o trotar dos grades cavalos de guerra que indicam que a selvageria está para começar pois o flanco do inimigo cedeu. Nessa hora os escudos são deixados de lado, já tendo cumprido o seu papel é hora de brandir alto a espada e perfurar, cortar e rasgar nossos oponentes. Nunca fiz escravos ou escravas, eu sou a morte no campo, eu sou o flagelo dos homens. Jamais gostei do uso do helmo, além de atrapalhar a visão ainda pesa e sufoca, em dias quentes são um verdadeiro tormento. Apesar do seu aspecto amedrontador prefiro que o inimigo se amedronte apenas com o meu olhar feroz, com o meu grunido, ou quando parto em disparada a gritar "Pelo Rei, pela honra, pela glória dos meus antepassados! Por Allison a quem amo e por Chloe a quem vivo!" A última parte do meu grito de guerra surgiu a 6 anos e desde então, tenho lutado de modo ainda mais feroz, não suportaria a idéia de ver bárbaros saxões colocando suas mãos imundas em Chloe, minha doce e amada filha.

Os inimigos surgem no horizonte, são muito mais numerosos. Um enxame de homens quase sem formação, com pesados machados e peles reforçadas como armadura. As temidas maças também são vistas, enormes bolas de ferro fundido, pesadas como chumbo e letais em mãos fortes e hábeis. Devo salientar que eles são defato muito fortes e hábeis com armas de duas mãos, vilãs de escudos e o terror de corações fracos. Sinto o sangue ferver, um pouco de terra nas mãos para tirar o suor, beijo o lenço que Allison me deu no dia em que nos conhecemos, choro sentindo a sua falta. Prendo os cabelos com palha trançada, confio o meu bigode e aliso a minha barba que agora, depois de 8 meses fora de casa, já estão grandes. Me coloco de pé esperando o apito para que a formação seja feita. Ajudo meu irmãos a se levantarem, abraço cada um deles e chamo Bateman para ser o meu escudo. Numa parede de escudos, o homem em que mais se deve confiar é o que está à sua direita pois é ele que irá aparar os golpes, que por ventura forem desferidos contra você, quando for estocar com a espada, dada a necessidade de se afastar algum intruso que esteja perfurando a parede de escudos. Sendo assim, eu sou o escudo do homem à minha esquerda. Todos somos irmãos, leais e compaheiros, na parede de escudos não há espaço para erros. São 3 filas de escudos com armas curtas e 2 filas atrás com escudos e armas longas como alabardas e lanças. Quando os inimigos se chocam com a parede eles são alvos fáceis para os lanceiros que desferem golpes mortais quase sempre no meio dos olhos mas, sempre ficam vulneráveis a bestas e fundas, pois devem projetar o corpo acima da linha dos escudos afim de estocarem. Nas últimas 3 filas ficam mais infantes menos focados na força mas sim na agilidade, eles geralmente entram depois que a parede se abre para que possam varrer o campo como bestas malignas. Um vácuo de 3 braças e vêm 4 fileiras de arqueiros, ainda fazendo parte do pelotão. Fechando a retaguarda, temos a cavalaria. Eram 12 filas e 10 colunas. Assim se formava um pelotão compacto e ágil, podendo agir de forma rápida na necessidade de troca de táticas em plena batalha. Nossos flancos eram defendidos por cavalos de guerra que, juntamente com o cavaleiro, pareciam uma muralha intransponível. Além da proteção eram implacáveis e impiedosos, sem demosntrar compaixão, eles usam diversas armas, desde lanças a pequenos arcos e sem contar o medo que causam no inimigo.

Allison, como eu a amava. Seus cabelos lisos sempre curtos, de louro escuro como ouro, sempre presos por delicadas fitas de cetim. As vezes à noite me pegava enrolando os dedos neles quando ela os lavava com mel, leite e água cristalina do riacho que corria no quintal de nossa casa. Seus olhos verdes com as bordas da íris castanhas-claras eram celestiais e quase sempre eram as primeiras coisas que eu via ao acordar... e acordar dessa forma é sublime, seu olhar carinhoso e seus lábio movendo-se para me dizer "Bom dia meu amor." com uma voz que faz, na maioria das vezes, meu coração de pedra se esfacelar e chorando a abraço e digo que a amo também. Não há dia desde que nos conhecemos que não me sinto afortunado de ter tão bela, amorosa e leal companheira que além de tudo o que faz por mim, ainda me deu uma pessoinha a quem devoto a minha vida. Batalho por ela, sangro por ela, sinto dor por ela e para ela, Chloe foi a maior benção que já tive na vida e talvez tenha sido a única vez que eu tenha agradecido a Deus por algo. Quando a peguei em meus enormes braços pela primeira vez, era tão fragilzinha que parecia que ia se quebrar... assim que a peguei, se aninhou junto ao meu coração e talvez pelo barulho alto desde, que batia descompasadamente de emoção, acordou. Abriu os olhinhos e deu um sorriso, Allison me olhando da cama também sorriu e desde aquele dia vivo por ela amando a sua mãe acima de todas as outras coisas. Passei a me desfazer dos meus espólios, vendedo-os como prêmios a outros guerreiros, não me importando que contassem novas e mentirosas histórias de como foram conquistados. Juntei uma pequena fortuna com essas vendas de modo que pude dar toda a assitência à minha família, permitindo que tivessem uma vida confortável e permitindo também, que Chloe fosse iniciada nas letras e nas palavras. No campo de batalha, eu relembrava os dias felizes que passamos juntos e isso me tornava perigoso na peleja, por que o que mais pode desejar um homem cuja família o espera? Deitar-se com a esposa no fim de uma noite de primavera, brincar no riacho com a filha no verão, colher lenha nas colinas para aquecer o fogão onde um javali, caçado à mão, espera na panela. A formação está pronta, as hostes estão prontas, vejo no meio do campo, à distância de 5 flechadas, os capitães discutindo as propostas de rendição, uma formalidade inútil pois nenhum lado há de ceder. Xingam-se uns aos outros com seus respectivos druidas rogando maldições. Esperava que meu Rei estivesse entre nós, com seu enorme cavalo, o maior que meus olhos já viram, e sua brilhante armadura, com Excalibur na bainha desejando morte. Sua voz retumbante já fez hordas fugirem sem lutar e sua presença no embate leva terror e medo aos inimigos.



Escrito por Diogo Bulldog às 13h13
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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, BARRA DA TIJUCA, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Games e brinquedos, Cinema e vídeo
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