O homem que fez café
Seis horas da manhã. Acordo de sobressalto de um pesadelo. Um grande amor perdido, uma vida desgraçada que me jogaria de volta no limbo que era minha vida antes de vir para os Estados Unidos. Suando, abro a cortina e vejo a neve caindo mansa... a rua ainda escura, a aurora jogando cores animadas no céu, a última estrela some no horizonte. Respirando fundo, enxugo o suor da testa e tiro meu pijama. No banheiro, ligo a aquecedor e abro o registro. Caem as primeiroas gotas de água no meu braço como pequenas agulhas furando a minha pele... recolho rápido o braço e espero a água esquentar. Ouço o caminhão de lixo passando na rua, o entregador de jornal passa cantando alto uma música que não identifico. O vapor que sai do box já indica a água quente, entro devagar e experimento a água "Hmmmmm..." penso "Perfeito!". No banho penso na bela garota que todos os dias encontro a caminho do trabalho, sempre saido da Starbucks na Main Street. "O que ela deve pedir? Com certeza um Breakfast Blend. E porque sempre dois copos?" tento descobrir o que ela pede, tentar desvendar sua vida através de um pedido de café. Tímido e recluso, sempre passo por ela direto, tampando a respiração para não sentir o seu perfume... preciso saber o que ela pede primeiro. Nesse inverno, sempre se veste com sobretudos de lã pesados, não faço a menor idéia de como é o seu corpo e essa dúvida me gera uma facinação enorme, a imaginação aflora. Uma tentativa vã de determinar até mesmo o tom da sua pele que pela face parece ser banquinha como a neve. Lourinha de bochechas lisas, roliças e rosas com olhos verdes bordados de mel, me sinto fraco quando a vejo. Eu prendo a respiração, esperando saber o sabor do café. Me arrumo e vou trabalhar. Ando em direção à porta e já ouço o choro das crianças sendo acordadas para irem à escola. Saio de casa e resolvo ir de bicicleta para o serviço. Geralmente vou à pé, mas se encontrar meu amor de novo hoje, cairei de joelhos porque estou muito fraco. De bicicleta pegarei outro caminho.
Faltam apenas dois quarteirões para chegar ao trabalho e caio da bicicleta. Capoto e rolo o pequeno declive. Com as costas viradas pro chão e com a bicicleta emaranhada entre as pernas, vejo ela passar com seus dois copos de café ao meu lado. Não há ninguém na rua, apenas nós dois. Caí quando a vi cruzando a faixa de pedestres e por isso perdi o controle da bicicleta. Ela passa e nem me olha. Puxo o ar pra falar e sinto o perfume... Marc Jacobs, a fragrância suave de patshouli com gardênia é assombroso e não me permite errar. Entro em pânico! Tento me soltar da bicicleta enroscada na perna, mas as correntes soltaram e ajudaram a me enrascar. Marc Jacobs eu penso alucinado, não pode ser! Esse é um perfume masculino... dois copos de café... ela não para pra me ajudar. Meu desespero aumenta a cada passo que ela dá sem olhar pra trás, sem ver o que fez comigo. Começo a chorar compulsivamente, tremendo e sem forças. "Eu te amo! Eu te amo!" grito apavorado, as pernas já imundas de graxa e com pequenos ferimentos nas mãos de tanto fazer força para soltar a corrente. Ela se vira lentamentee olhando pra mim diz "Você falou alguma coisa?" sua voz é maravilhosa, aumentando ainda mais o meu desespero. "Qual o pedido que você faz no Starbucks!?" eu berro alucinado, chorando e me debatendo com a bicicleta. Ela, antes de virar a esquina me responde sem nenhuma emoção na voz "Peço sempre o House Blend descafeinado!". Sem pensar mais na minha integridade física, consigo me soltar da bicicleta. Corro em direção à linha do trem e me jogo debaixo do vagão me movimento.
Escrito por Diogo Bulldog às 01h35
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