As histórias da Vida do Menino Mendigo


Retórica do fracassado

Domingo à tarde cheguei em casa, devia ser umas 19:40 ou 20:00. Agora 6:08 da manhã de quarta-feira. Tirando 3 saídas esporádicas, 2 pra comprar matte na padaria, a outra... eu conto depois... eu não saí de casa. Me sentindo mal e extremamente deprimido, me exilo, meu corpo doente, minha mente em frangalhos, minha alma despedaçada. Já não há auto-estima, já não há vontade, vejo meu rosto lívido destituído de qualquer emoção. O cheiro fétido da casa, pelo suor e pelo sufocamento causado pelas janelas sempre fechadas ou talvez o fedor venha dos restos de carne e comida que apodrecem na pia, onde um monte de insetos agora se banqueteiam. Eu não ligo. Meu parco asseio, que se confunde com meu próprio desleixo, me impede de andar pela minha própria casa. São roupas sujas espalhadas, fios, insetos mortos... grandes poças de porra secas no chão, resultado de inúmeras masturbações, tentativas infrutíferas e desesperadas de alívio e prazer, que não me dou ao trabalho de fazer de modo limpo. A privada entupida, sim, talvez ela também contribua para o fedor descomunal, que impregna toda a casa pequenina, que se mistura de forma homogênea. Quase todo o tempo deitado olhando para o teto, em outros momentos, vendo filmes de mestres que elevam a minha sensação de inutilidade, conversas no MSN que demostram que existem pessoas boas no mundo, não as mereço. Insone, tento manter ocupada a mente, mas o que leio, vejo, converso ou jogo demonstram que as pessoas fazem o mundo girar, que têm algum significado para o mundo... que contribuem para o desenvilvimento da sociedade e da evolução do homem. Hoje é aniversário do meu pai, eu queria muito estar com ele, mas sem forças, vejo que talvez eu deva adiar a minha visita. Nunca fui bom filho, nunca dei motivo para que meus pais se orgulhassem de mim. Um pai sente orgulho do filho quando o filho é estudioso, quando ele se forma com louvor, quando ele trabalha e segue o rumo da própria vida. Na contramão disso tudo, contra a maré de bons filhos, eu vou nadando... ora crawl, ora borboleta ou nado de peito, mas sempre contra a maré. Vejo como iludo a mim mesmo quando bato no peito e digo com orgulho que não fumo, que não bebo e que não me drogo. Uma idiotice sem tamanho. Já cansei. Cansei de tentar ser bom, resolvi assumir que nunca o serei. Cansei de ser preterido pela família, cansei de ser esnobado, cansei de viver essa vida de merda, salvo claro e enfatizo, muitas pessoas que sem elas de desgosto já teria perecido. Estou me tornando de pedra, já a algum tempo repudio de forma veemente a felicidade das pessoas. Odeio gente feliz! Odeio gente bem sucedida! Odeio de forma clara, todos que se dão bem na vida! Todos escalam a montanha enquanto eu afundo no lago profundo? Vão todos se fuder! Sou um egoísta nato, desejo todo dinheiro do mundo só pra mim assim como desejo que todos afundem também. Espera... isso não seria egoismo. Tá, tá a parte de todo o dinheiro do mundo seria, mas o fato de eu querer compartilhar com vocês a minha ruína, desejando a ruína de vocês é um ato de caridade! Quero compartilhar! Quero todos afundando comigo, enquanto afundamos, podemos brincar de roda, cantar e dançar, sempre em direção ao fundo. "Nossa Diogo, mas que pecado você falar isso." vão me dizer. Respondo da seguinte maneira "F-O-D-A - S-E-!". Resposta mais clara impossível. Me dizem que sou pessimista, mas como eu hei de ser otimista se nem consigo respirar direito nessa vida de merda? Tudo fede, tudo é sem cor, sem gosto, sem tato! "Entraremos em contacto.","Nós ligaremos pra você." HAUHAUhaUhAUhAUhAUHAUHAUHAUHAUAHUAHAU!!!! porque não dizem simplesmente "Saia da minha frente seu desgraçado, fracassado e inútil!" com certeza eu ficaria muito mais feliz. Adoro quando as pessoas falam a verdade. Eu sei que elas não entrarão em contato, eu sei que elas não ligarão, mas sei que sou desgraçado, fracassado e inútil. Vejamos a vida como um RPG, atributos básicos como força, destreza, inteligência e vitalidade fazem parte da vida. Força, pra que serve a força?. Destreza, nenhuma, demoro pra responder a estímulos. Inteligência? AHUAHuaHuahAUHAUH! Próxima! Vitalidade, dois passos e o terceiro já está na cova. Hmmmmm... isso é deveras interessante. Tudo em minhas habilidades é do zero pra baixo. Ha! Sou um cara abaixo de zero! Será que sou o Homem-de-Gelo? hmmmmm... não. Sub-Zero??? hmmmmmm... Também não. Então o que eu sou???? Coro de anjos:

"Você não é ninguém! Sinos de Belém!"

Mas o que diabos os sinos de Belém tem a ver com isso? "Nada!" respondem os anjos "Você não é ninguém, ninguém é um nada! Logo nada tem a ver com ninguém!" e saem voando. Sou incapaz de entender isso.

Sou a visão do pandemônio da vida infrutífera. Estou realmente abismado com a quantidade de baratas, formigas e lacraias que tem aqui em casa. Acho que eu sou disléxico, que tenho cáries enormes nos dentes "Doutor, por favor... anestesia geral!", dores constantes de cabeça, minha insônia voltou com toda a pompa. Se pelo menos eu fosse hiperativo, mas isso seria uma mera desculpa. Vejamos aqui o que temos na geladeira... deixa eu ver... NADA!!!!!! AAAAAAHHHHHH!!!! Viver de matte pode ser muito bom. Vejamos a briga. De um lado a fome, do outro a preguiça. Tenho 2 garrafas de matte para sobreviver durante esse tempo que cá estou. Vou no banco pegar dinheiro e viver de delivery? Vou no mercado fazer compras? Ou fico em casa e vivo de matte? Espera... o que é aquilo dali no fundo da geladeira? Ah, o macarrão da semana passada. Mas a aparência é horrível. Preguiça por favor, me impeça de ir na rua comprar comida decente e me faça comer essa porcaria estragada aí. "Sim senhor!" Nossa, ela me tratou bem. Que coisa rara. A padaria é ali perto me disse a fome. Tá bom, eles aceitam cartão? "Acho que aceitam cartão de crédito." de débito não? pergunto... "Ah!" suspira a fome "Nós esquecemos que você é um energúmeno de alto quilate que além de fracassado não tem cartão de crédito porque tem o nome sujo na praça!" diz feroz "Mas sim, eles aceitam!" Deço e resolvo ir fazer compras, ligo pra Elen para falar do aniversário do meu pai e passo na frente da padaria em direção ao Mercadez. Chegando lá... muito cheio, volto pra casa e cansado, tomo um gole de matte. Minha vizinha de 50 anos chegou em mim.



Escrito por Diogo Bulldog às 06h31
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Digo-te Não Vilão!

Eu a amava demais. Por amá-la tanto, terminei nosso relacionamento um ano depois de nosso noivado. Os pais dela acataram a decisão pois acharam que meus motivos eram realmente verdadeiros. "Sou um fracassado desempregado! Que futuro eu darei à sua filha que tanto amo e a quem daria minha vida sem dar ouvidos à dúvida?" eu chorava. "Que bom! Muito bom saber que você pensa assim seu verme. Nunca apoiei o relacionamento de vocês, mas como você faz agora, aceitei por amor a miha filha!" me disse me dando um belo murro na cara e soltando um sonoro suspiro, como se desejasse ter feito aquilo a muito tempo. Nem precisei ficar lá para explicar mais nada. Saindo da casa, ele soltou os dois dobermans que a família dela tinha... os dois cachorros me odiavam e eu a eles. Batman e Superman corriam a toda velocidade e eu também, tentando fugir antes de ser alcançado pelos dois. Subindo o muro como Spiderman, me safo de ter que me bater com os dois enfurecidos cães. No alto do muro me sinto muito triste. Dois heróis de capa correram atrás de mim... heróis de capas... capas são tão fashion. Pulo para a rua deserta e com as mãos no bolso do casaco, ando na direção onde o sol agora se põe.

Ando pela cidade a esmo. Vou para um bar onde possa beber uma boa dose de pinga pura para depois e cheirar o resto de cocaína que tenho na virília suada e cheia de uma pasta que parece queijo. Meu celular toca e que simplemente o quebro. Um presente que minha noiva... digo... ex-noiva... começo a me indagar que, se eu terminei a relação, mas ela não sabe ainda, se posso considera-la uma ex? Pergunto isso ao cara do bar e ele me responde "Se pensármos assim, todas as vezes que nos casármos, seremos automaticamente viúvos ou divorciados." Peço mais uma dose e saio do bar me sentindo extremamente mal. Relacionamentos acabam no momento em que passam a existir. Vou até a loteria e faço o meu jogo de sempre. Nunca vou ganhar eu sei, mas eu sinto um enorme alívio só de apostar... adoro qualquer tipo de jogo. Saio da loteria e dou de cara com minha... noiva... mas pelo esclarecimento do cara do bar, tudo já tinha acabado desde o começo... ela não é nada minha. Mas enfim, dou de cara com ela e ela vem me beijar. Viro o rosto e digo "Nós nunca tivemos nada... suma da minha frente". Ela ainda assim me agarra e me beija forte "Porra Diogo, você sempre fala assim! Essa brincadeira perdeu a graça!". Quando a encaro, vejo que o cara do bar estava equivocado e que o amor é lindo e que relacionamentos foram feitos para durar. - Analisando aqui de fora e relendo o que escrevi, vejo que o dono do bar não falou nada disso, não sei bem o que ele queria dizer mas o eu mesmo aqui interpretou dessa forma, paciência. - Beijo-a freneticamente mas ainda assim digo a ela que tudo está terminado, que eu a amo acima de todas as coisas, contrariando os 10 mandamentos, mas que sou um fracassado e que não posso prover a ela, tudo o que eu ela merece. Conto sobre todo o ocorrido na casa dela com os seus pais, sobre Batman e Superman correrem atrás de mim, e como que, imitando o Spiderman, consegui pular o muro. Contei também a frustração de ser o herói sem capa de toda essa história. Capas afinal de contas são tão fashions.

Ela vê a fé com que digo essas palavras e sai correndo chorando, não sem antes dizer que me ama e que dinheiro não é problema. Ela vem de uma família rica e estruturada, eu sou um fracassado desempregado e totalmente desgraçado pelas altas doses de pinga e cocaína. Vou pra casa, que ela comrpou pra mim e me jogo na cama que ela comprou. Me masturbo e gozo no lençol que ela comprou e percebo que ela comprou tudo o que eu tenho!!! Choro e em pânico e desespero, começo a quebrar tudo e a me auto-flagelar. Penso seriamente em arrancar o meu pau fora, mas acabo deixando-o ali mesmo e arranco apenas um pentelho simbólico. Ando pela casa, nada ali é meu... mas é meu porque ela me deu de presente... tenho um colapso e desmaio.

Passados dois dias, recobro a conciência e me levanto, percebendo que urinei e caguei mole na calça. Minhas pernas, virílias e minha bunda extremamente assadas. Vejo na secretária eletrônica, desenas de mensagens. Ouço-as e são da minha, agora sim ex-noiva (sinto um enorme alívio em ver esse impasse resolvido), dizendo que me ama desesperadamente e que o fato de eu ser realmente um fracassado, não diminui o amor dela por mim e das 25 mensagens que tenho, todas são dela falando a mesma coisa. Começo a reconsiderar esse pensamento estúpido que tenho. Eu sou um fudido, sem ela sou mais fudido ainda. Ela me ama e assim, além de ter o amor dela, ainda não morrerei de fome. Fora o fato de eu ser feio pra caralho, careca, gordo, surdo, brocha e com péssimo gosto para me vestir. Nunca teria outra mulher a não ser ela. Amo-a concluo com lágrimas nos olhos e procuro entre a casa toda revirada, roupas elegantes para me reapresentar pra ela. Ligo a televisão enquanto isso e alguns minutos depois de ligada são dados os números da loteria e eu desfaleço de novo ao ouvir os números que sempre jogo serem citados. Recobrando a conciência horas depois, pulo de tanta felicidade e termino de destruir tudo o que eu vejo. O prêmio acumulado me pagaria R$33 milhões e isso simplesmente me tirava da lama e me jogava no trono. Corro até a CEF e entregando o bilhete, sou sequestrado pelos agentes da empresa e durante 2 semanas, sumo do mapa.

Voltando para a cidade depois de um retiro de uma semana no Taiti. Vou direto pra casa da minha amada. Vou bem vestido, com o melhor terno que se pode conceber e o táxista fica impressionado com a grana que dou pra ele sem pedir o troco devolta. "Valeu careca!" ele me diz. Passo a desejar a sua morte ali mesmo. Toco a capainha e sou atendido. Entro e sou extremamente bem tratado pelos pais dela. Mando-os se retiratem e vou para o jardim onde espero por ela. Ela vem e chocada de felicidade tenta me beijar... viro o rosto e digo "Vim aqui apenas para dizer que não me procure. Se antes eu não tinha nada pra te oferecer, agora tenho demais e temo que se interesse apenas pelo meu dinheiro. Fora que, com esse novo estatus de rico, posso ter mulheres muito melhores do que você. Suma da minha vida!". Viro e vou saindo em direção ao portão que dá para a rua. Abro o portão e olho uma última vez pra trás e vejo ela chorando compulsivamente. Ando pela rua vazia em direção ao por do sol e ouço o ofegar de dois dobermans que correm atrás de mim. Me volto para eles que se aproximam cada vez mais e baixando a cabeça penso "Pelo menos dessa vez... eu sou o Lex Luthor!"



Escrito por Diogo Bulldog às 22h02
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