As histórias da Vida do Menino Mendigo


Eu Quero Morrer no Altar!

Eu nasci de forma muito estranha. Passado a data marcada para o parto, teimava em não querer sair, estava terminando os planos de suicídio no ventre da minha mãe. A pouco tinha descoberto que nasceria no Brasil e tratei de enrolar o cordão umbilical no pescoço e no escuro achei uma cadeirinha na qual me prostrei e logo após uma prece, pulei. Nada de adeus mundo cruel, apenas um pulo para a vida eterna. Já ali, tinha o meu segundo fracasso. Já do lado de fora fui espancado enquanto minha mãe berrava "Ele está morto doutor?" e eu pensava comigo "Mamãe, você não tem idéia de como eu gostaria de estar morto agora." mas eu não estava, estava vivo e com a bunda ardida. Jogado de um lado pro outro sem a menor cerimônia, me enrolaram num cobertor macio e devo admitir que a sensação foi muito boa. Ao ver minha mãmae, eu me aquietei e comecei a dormir. Um sono longo onde eu vislumbrava a minha vida desgraçada que estava por vir. No sonho, eu me via um completo erro da genética e da moral. Eu via pessoas me chamando diversas vezes sem que eu as escutasse. Eu via os garotos correndo, jogando bola por horas e eu bufando a ofegar como um soldado morimbundo. Eu via corpos torneados e pessoas saudáveis à minha volta enquanto meu corpo doente e engordurado tapava uma parte maior do sol no chão. Ouvia as histórias de sexo selvagem dos meus amigos enquanto me recolhia à minha insignificância para o mundo sexual, insuficiência e feiúra para o desejo feminino. Ia a compras sem nada comprar onde meus semelhantes e seus belos empregos condicionavam compras, bons restaurantes, carros e mulheres. Via-me na sarjeta, querendo ser um herói para alguém, mas todos estavam já salvos, eu não queria ser um herói de mim mesmo. Amores, casamentos e famílias eram formadas, felicidade, amizade e amor emanavam dos que me rodeavam... em um quarto escuro em um bairro decadente, completamente só na madrugada, eu me via a escrever contos sem fundamento.

Acordo ouço vozes no berçário. "Eu serei o Presidente de uma multinacional!" grita um, "Eu serei um grande ator!" outro grita. "Terei boa família e me casarei com a garota mais bonita do bairro!", "Minha vida será repleta de felicidade!"... um a um gritaram uns para os outros sobre os sonhos de suas vidas que tiveram assim que nasceram. Em uníssono todos falaram "E você Diogo, o que você representará para o mundo?". Depois de um silêncio mórbido "Serei presidente de multinacional, serei ator famoso, serei feliz esposo e pai de família, serei herói do mundo, serei a perfeição em pessoa!!!" berrei alto para todos ouvirem. Em uníssono novamente todos disseram "Você é um mentiroso!" começo a chorar baixinho e digo "Sim... sou um completo mentiroso.". Choro e volto a dormir, a partir dali minha vida se tornou uma sucessão de fatos lamentáveis. Desde a infância até a fase adulta, sofri pelos erros da genética e pela moral distorcida que carregava no corpo. Péssimo aluno, péssimo amigo, péssimo amante, péssimo em tudo e em todos os quesitos da vida. Um dia porém, resolvi mudar o rumo da maré, resolvi lutar. Lutei por dias e dias, meses e meses, lutei por anos a fio e perdi. Quando perdi, resolvi me reerguer e não desistir, afinal de contas na propaganda do governo dizia que um brasileiro não desiste nunca. Me equipei com as melhores armas. Punhetas constantes para manter o apetite sexual, nunca saciado com uma mulher, fotos de beldades para manter a moral elevada, músicas inspiradoras, boa comida, bons e, tal qual as músicas, inspiradores filmes, livros, quadrinhos de super-heróis e todas as coisas que elevam a moral de uma pessoa a ponto de ela realmente mudar. Gastei um bom dinheiro que eu não tinhas para essa empreitada e... falhei. Pessoas que adoram um drama chegavam pra mim de forma direta e na cara-de-pau e me diziam "Não fica assim Diogo, você é um cara legal, inteligente pra caramba."... inventavam mentiras desse tipo só pra me verem cair de novo e se divertirem com a situação.

Um fatídico dia veio em que fui assombrado por pesadelos reais de pessoas com quem estive quando nasci. Era ano novo e sozinho em casa eu me drogava no afã de ser feliz, mas diferente das outras pessoas, eu me drogava e não ficava feliz, nem eufórico e nem ligado... elas não faziam nenhum efeito em mim. Podia cheirar o quanto meu nariz aguentasse, podia fumar até o pulmão doer, podia tomar Xanax, Valium e tudo mais e nada... bebia até quase estourar e nenhum efeito. Perdido, deito na cama imunda de mijo e porra seca e ligo a TV. Vejo uma entrevista com o Presidente de uma multinacional, logo depois vejo a premiação recebida por um grande ator, vejo um pai com uma linda garotinha nos braços da bela mãe, a primeira menina a nascer no novo ano... uma pessoa em uma cadeira de rodas mas repleta de felicidade. Sem perceber, vejo-me a pegar um grosso e longo fio elétrico. Amarro uma ponta na base do veltilador no teto e na outra ponta amarro o meu pescoço. Faço isso no alto de um banquinho. "Que se foda todo mundo!" e pulo, o fio se estica mas aguenta o tranco. Começo a me debater, a sufocar e soltar gritos guturais e espasmódicos... nos lábios um largo sorriso, tudo escurece.

Para o meu espanto, acordo no chão do quarto. Chorando muito, corro em direção à janela e me jogo sem pensar. Caio em cima de um monte de lixo que amortece a queda e me impede de morrer. Começo a me jogar na frente dos carros mas inexplicavelmente eles conseguem parar ante de me atropelarem. Roubo a arma de um policial e tento dar um tiro na cabeça mas a arma falha. Subo no prédio mais alto possível e, vendo se nada há lá embaixo que me amorteça a queda, me jogo. Sou salvo pelo Superman!!!!!

"Sim, sou um completo mentiroso!" reafirmo para meus coleguinhas.



Escrito por Diogo Bulldog às 06h29
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