Lá estava eu no meio da praça, completamente imóvel, pensando em uma vida feliz que eu nunca teria e aqui, enfatizo o nunca. Em uma posição estranha me encontro. A cabeça inclinada para frente, braços curvados com as palmas viradas para o rosto, os pés levemente separados mais abaixo. Olho para as minhas mãos e penso "Mãos que nada criaram." Ajustando a vista, olho meus pés diretamente e penso "Pés que não chegaram a lugar algum." Tento sentir meu coração, mas sinto apenas o vazio de uma pessoa que nunca viveu, que nunca teve a chance de amar e ser amado... que nunca desejou mudar, ser uma mudança no destino do mundo. Sou água parada, sou um ventilador quebrado, no meu semblante a escuridão abissal. Meu ar melancólico denota toda a minha frustração, todo o meu rancor pelo mundo mas também, a vontade de ser livre, livre de meu próprio fracasso, do ferro que moldado, dificilmente se deforma. Respiro e não sinto meu pulmão se encher de ar. "Sou tão vazio assim? Sou tão sem vida que nem mesmo ar consigo sentir em minhas entranhas?" Sinto uma tristeza enorme, uma ecatombe depressiva que me força o choro. As lágrimas deveriam cair depois de se dependurarem na beira dos meus olhos secos, prontas para despencarem no abismo negro da minha vazia vida, mas elas não caem e nem mesmo são produzidas. "Sou assim tão frio que não choro nem a minha própria desgraça?" Tentando esquecer os sentidos físicos e emocionais, me concentro nas minhas memórias, mas eu só me lembro da praça e das pessoas que ali trafegam, como se ali fosse o meu mundo, a minha memória tão curta que me impede de lembrar-me de algo além da praça. Não lembro de meus pais, dos meus amigos ou dos momentos. Fracasso em tentar reviver o que nunca foi vivido.
Escurece e ainda estou lá. A noite vem fria e me machuca. As pessoas vão para as suas casas, se aquecem no amor de suas famílias. O rapaz que agora pouco passou por mim, pulando feliz, tinha conseguido uma promoção e agora era executivo da empresa. Com certeza chegou em casa e contou para a linda esposa, fizeram amor durante toda a noite. Em meio aos orgamos balbuciaram, não seus nomes, mas juras de amor eterno. Ali naquela noite, a fusão divina do homem e da mulher gerou uma centelha de vida que dali a alguns meses alegraria ainda mais a vida do jovem casal. Linda menina haveria de nascer. Desejei amar a mulher do jovem, desejei ter uma filha para amar e brincar... desejei ser o nobre rapaz, dono de seu mundo, moldador de seu próprio destino. Logo ao meu lado, bem agasalhados, um jovem casal conversava. Como a me ignorarem, conversavam sobre suas vidas. Vidas felizes devo dizer. "Eu te amo acima de todas as outras coisas." ele disse. Com lágrimas nos olhos ela olha bem para os olhos do jovem e o beija... nunca fui beijado, nunca chorei quando, com os lábios da mulher amada juntos os meus, escrevi uma página a duas mãos. Minhas mãos nunca sentiram a pele lisa e sedosa de uma mulher, um sussurro no meio da noite com um "Você além de todas as coisas." Não sinto fome, não sinto dor, apenas o vazio.
A madrugada chega e ainda estou lá. Um mendigo cheio de bebida na cara para e fala comigo "Vai tomar no cu porra! Tá olhando o que seu filho da puta bastardo!?" Tento formar uma resposta, mas não consigo. Meus lábios estão colados. "O frio!" penso enquanto chego à conclusão de que não devo responder ao sujeito. Ele joga o resto da bebida em mim e logo após se repreende por ter jogado bebida fora, não se joga fora um copo de J&B. A bebida escorre pelo meu corpo, mas não faço nada para limpar. Não me lembro do gosto de uma bebida, de um suculento pedaço de carne vermelha no meu prato, ou do sabor doce da boca de uma garota. O mendigo vai embora cambaleante. Fico sozinho o resto da madrugada, tirando alguns momentos em que alguns policiais passam pela praça resmungando injúrias que não compreendo. Resolvo ficar até o amanhecer para tentar ver se o sol me anima a viver, a correr atrás da minha felicidade e do meu rumo na Terra.
A manhã chega e as pessoas passam por mim felizes. Elas dão bom dia uma para as outras, pra mim nada. Se felicitam pela vida perfeita que levam. Vão para o trabalho, vão para a escola ou simplesmente vivem plenamente. O casal do novo executivo passa por mim, com a pequenina já encaminhada. Na minha frente o novo casal de amantes da cidade enaltecem o novo amor. O mendigo se mostra na verdade um homem de bem, apenas voltava de uma festa regada a J&B e Absolut, onde celebrava os excecivos ganhos de sua empresa na madrugada que passou. Um criança lê uma placa que está logo abaixo de mim. Um pássaro pousa na minha cabeça e sem medo ou remorso, defeca e sai voando. Eu ali parado no meio da praça, completamente imóvel, cabeça inclinada para frente, braços curvados com as palmas viradas para o rosto, os pés levemente separados mais abaixo. Agora consigo notar, os pequenos focos de ferrugem.
"Nada é estático. Tudo está desmoronando." - Chuck Palahniuk - Clube da Luta