O Primeiro Encontro
No centro da cidade, a fumaça negra e a fuligem do prédio em chamas chamavam a atenção daqueles que, ao longe, avistavam o negrume no céu. O barulho ensurdecedor do crepidar das chamas apavoravam todos que passavam perto do prédio. A portaria apinhada de gente fugindo de dentro do edifício, aos berros, com lágrimas nos olhos. Algumas pessoas queimadas e outras totalmente encardidas pelo pó preto do fogo. Pedaços de janelas caiam no chão aumentando o barulho e o caos. Na maré contrária da multidão a fugir de dentro do prédio, viu-se um rapaz sem cabelos nenhum na cabeça, gordo, moreno feio pra caralho e pasmem... com cara de brocha. Ele corre contra a multidão e entra no prédio. Olha para um lado e para o outro e cata um segurança alarmado pela gola da camisa e pergunta para onde o fogo está mais intenso. Na cabeça daquele pobre rapaz, uma música épica tocava, ele imaginava a câmera em ação balançando sem parar para dar o tom de urgência ao que está se passando ali.O segurança nada diz e enquanto o segurança é balançado de um lado para o outro, as últimas pessoas saem do prédio e, se desvencilhando das mãos que o seguram, o segurança sai correndo também. Sem esperar por notícias, Diogo, o nome do desgraçado rapaz que, gordo, careca feio e brocha, deseja ser um Super-herói!
Desata a subir sem nada temer as escadas. O calor sufocante não o impede de tentar subir cada vez mais. Ele aproveita para tirar o sobretudo que escondia o seu uniforme. Antes, tira do bolso do sobretudo, uma pequena tira de pano branco e amarra na cabeça "Eu sou o Rambo da Paz!" pensa o imbecil. Seu uniforme é a prova unânime do quão fracassado é esse herói malfadado. Além da faixinha do Rambo da Paz, um maiô verde água colocado por cima de um short colant com pequenas listras horizontais nas cores amarelas, laranjas e verde-abacate. Uma pequena máscara de vedete dos anos 40, com paetês vermelhos relusentes, para ocultar a sua identidade. Ele ouve vozes e corre na direção da voz. Abrindo a porta da escada ele se ajoelha no chão, uma posição vergonhosa para um herói, para fugir da fumaça que corre rente ao teto. Tenta ir o mais rápido possível. Pergunta se há alguém lá e nenhuma resposta. Gritas de novo e nada. Ele tntra em uma sala e para a sua surpresa a voz vem dali. Uma voz chiada, sem nenhuma nitidez. Ainda assim ele pode ouvir e entender o que se passando... ele acha um walk-talk caído logo mais a frente. Ele consegue então, captar os sinais dos bombieros que lá embaixo, acabam de chegar. Sem hesitar ele pega o aparelho e se comunica com o pessoal. "Alô! Aqui é o Brasileiro, estou dentro do prédio, tudo está sob controle, vou salvar as pessoas que estão aqui dentro. Se preocupem em apagar o fogo enquanto isso. Não arrisquem seus homens aqui dentro!" Diogo disse com toda a pompa de herói. Do outro lado veio uma resposta nada agradável "Mas quem é esse filho da puta que está lá dentro? Segundo a segurança, todas as pessoas do prédio conseguiram sair a tempo, não há ninguém lá!"!!!! "Não há ninguém aí dentro, não precisaríamos arriscar ninguém em salvamento, mas você colocou tudo a perder seu bosta!" respondeu outro.
Diogo se desespera e começa a chorar. Todavia, começa a correr em direção à escada, mas o caminho está bloqueado para descer. Sem pensar duas vezes sobe para tentar alcançar o alto do prédio para ser resgatado no telhado. Ele suava e ele tremia. Sua vida de Super-herói iria se arruinar, mas ele tinha a seu favor, a sua identidade secreta. Chegando à porta que dá para a cobertura, queima a mão na maçaneta ao tentar abrir a porta. Se joga contra ela na esperança de ela abrir e ele poder tomar um pouco de ar fresco... está difícil manter-se respirando no meio da fuligem. Passam-se alguns minutos e ele está quase sem consciência, não consegue arrombar a porta e não pode descer por causa da fumaça e do fogo abundante... mas consegue ouvir o grito da multidão como se estivessem no show dos Rollins Stones em Copacabana. A multidão grita em uníssono um refrão que Diogo conhece bem "Lá vem ele, com sua capa e seu carinho. Louvemos nobre herói, avante Jack Rubinho!". Um barulho estranho e a porta é arrancada por inteiro. Do meio da fumaça e do caos, Diogo vê uma mão que o pega com carinho e delicadeza. Nos braços do Grande Herói, Diogo se aquieta e chora. Ele olha para as nuvens do céu que agora parecem se aproximar e numa mudança brusca de ângulo vê o chão... sempre no colo do herói.
O chão vai chegando lentamente até que o Grande Herói pousa suavemente no solo. A imprensa se aproxima, Jack Rubinho coloca o pobre rapaz no chão. O bombeiros começam a dar um grande esporro no Diogo. A imprensa filma tudo, mas a máscara esconde a sua verdadeira identidade. Os bombeiros falam com a imprensa sobre o Brasileiro, o menino que queria ser herói e tiram a sua máscara. Uma mulher grita "Diogo! Que maluquice é essa meu filho!?"... o microfone capta a voz da mãe do menino, sua identidade secreta já era. Jack Rubinho, cercado de mulheres, olha com carinho para Diogo e com um sorriso que só os heróis conseguem dar, saiu voando com sua capa lilás ao sabor do vento. Jack Rubinho voa para o céu enquanto Diogo Brasileiro, como ficou conhecido o desgraçado pseudo-herói, se enterrou no meio da multidão que queria linxá-lo. Um triste começo para uma promissora vida de herói fracassado.