Acima de Todas as Coisas
A sua voz ainda soava doce e distante na minha mente, ainda que, a um hora atrás tivesse me dito palavras carinhosas ao ouvido, duvidasse do meu amor. Porém o sentido que mais me alardeava era o tato. Na minha mão eu sentia o metal frio da arma em contraste com o cano quente por onde 2 projéteis sairam para penetrarem no corpo dela. Uma na cabeça... o primeiro tiro... outra no coração uma hora depois, apenas para me divertir com o movimento espasmódico do corpo... não sei qual tiro me divertiu mais. Matei-a porque ela disse que me amava. O cheiro acre do sangue começa a me sufocar, "Eu o amo! Mas se você me ama..." ela disse, uma bala, silêncio. Sinto-me letárgico e com efêmeros calafrios sazonais, uma onda de angústia, outra onda de paz. No espelho olho para mim mesmo de forma debochada, talvez porque possa ver a cabeça dela estourada logo ao meu lado no reflexo. Sua boca forma um beijo, me levando a sentir um bombeamento de sangue no meio das pernas, sou um necrófago. A arma na minha mão representa a metáfora do momento... o corpo frio... o cano quente. Tudo o que eu desejo é sodomizar a minha esposa morta no chão do quarto.
Ela me pediu a uns anos atrás "Se me ama, alivie Atlas por um dia!". Acenti e aceitei o desafio. Parti diretamente para o país das Hespérides no Poente onde o pobre titã sustentava o firmamento. "Atlas, sofredor condenado, por amor venho a te dar alívio, mesmo que sem a tua força eu consigo êxito este se dará porque a amo acima de todas as outras coisas." Chorando, Atlas me entrega o firmamento e eu o seguro. Por juramento fiz com que ficasse acerca de mim, por segurança e para que não se desse por desapercebido e fugisse. Por um dia inteiro, sustentei o céu nas costas, chorando de dor, as pernas a fraquejar e a coluna quase a se partir em duas. Minha resignação trouxe comoção aos que viviam entre os deuses e criaturas mitológicas. Durante um dia, foram cantadas canções a muito esquecidas, inimigos viraram amigos, maridos e esposas aceitaram suas diferenças e se puseram a festejar, até mesmo as fúrias se apiedaram do meu gesto, de amor acima de tudo. Ao final do dia, Atlas se aproxima e com voz serena e austera se dirige a mim respeitosamente "Agora vai Nobre Diogo, semelhante aos deuses, descansa de sua sina e leve essa estrela como prova do seu amor por ela." Tamanha foi a comoção, que o próprio Apolo, arrogante diante dos mortais, me levou para casa em sua carruagem, tranformando a noite em dia claro por onde passou.
Ela me abraçou e se maravilhou com o presente que havia trazido. "O próprio Atlas, condenado eterno, me deu essa estrela do céu, como prova do meu amor por você." Ela chora, mas não de emoção, mas sim pela pestilência da dúvida. "Se me ama, vá a Jotunhein e simplemente sobreviva por um dia à fúria dos Gigantes, odiosos dos seres de Midgard." Completamente pasmo, tento não demostrar a incredulidade no que vejo. Mas aceito ainda assim e com um beijo me despeço dela e sigo para Jotunhein. No caminho para a cidade dos gigantes me encontro com Thor vindo da direção da cidade. Ele está muito ferido e me diz que teve uma peleja com Tiazi, um gigante enfurecido. "É para lá que vou." digo com simplicidade. "Nem um minuto durará lá mortal, me apiedo de ti por se jogar assim tão facilmente nos braços de Morte." me diz severo o Deus do Trovão. "Se me vier a morte e ainda assim provar meu amor, por toda a eternidade sofreria nos domínios de Hela, sem rancor ou ódio." Me abraçando fraternalmente, Thor se despede de mim e diz que em canções celebrará o meu amor nos salões do Valhalla. Chego a Jotunhein à noite e entro no meio de uma enorme celebração. Celebram a vitória de Tiazi sobre Thor. Chego no meio da roda do festejo e todos param para me olhar. Parecem incrédulos em ver um ser humano no meio deles... desatam a rir. Mantenho a serenidade e os encaro nos olhos. Meu olhar era tão cheio de significados que pararam e ouviram a minha história, ainda assim me chamaram de tolo, mas permitiram que eu ficasse se me propusesse a um único desafio, desafiar o rei Thrym em um concurso para ver quem bebia mais cerveja. Thrym bebeu primeiro e com um segundo virou seu enorme copo, eu, por mais que tentasse, nem mesmo conseguia chegar à metade do enorme copo. Porém, quando derrotado, coloco o caneco no chão, vejo Thrym correr tapando o rosto sob vaias de seus conterrâneos. Nada entendo do que está acontecendo e sou levantado a uma grande altura e festejado. Pergunto a um jovem gigante o que aconteceu para que isso estivesse acontecendo, pois eu havia perdido. O jovem me explicou que o grande caneco onde bebi, representava os oceanos de Midgard e que, pelo meu amor, e pela ligação astral do caneco com o oceano de Midgard, este recuou 200 metros das praias do mundo e que por ver tamanha proeza, Thrym havia corrido de vergonha. A celebração durou até a manhã e como recompensa, levei o grande Caneco do rei Thrym, feito em diamante, lapidado pelo poderoso Mjolnir.
Regressando pra casa, posso ouvir as conções do Valhalla que enaltecem meu amor, corro pra casa para mostrar que ainda vivo. Chego e vejo uma reportagem na tv mostrado o estranho fenômeno do recuo das águas do mar que ocorrera 2 anos antes e que só agora se normalizava. "Pela minha devoção a ti, minha flor de Lis, recuaram as águas do oceano. Eis o troféu de minha empreitada.". Ela me abraça e me beija, durante anos desejei isso, mas estava ocupado com as andanças pelo mundo para provar que a desejava e amava acima de todas as outras coisas. Tomo um banho e vou para o quarto. Sento de frente para uma linda penteadeira com um enorme espelho. Abro uma gaveta para pegar um pente e lá está a minha antiga arma como a deixei. Vejo-a vindo em uma camisola tranparente na minha direção ela se inclina até chegar perto do meu ouvido "Eu o amo! Mas se você me ama..." ela disse... uma bala... silêncio. Eu a amo acima de todas as coisas.
Escrito por Diogo Bulldog às 07h01
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Lábaro do Fracassado
Parado na beirada do parapeito na cobertura do grande edifício olho para baixo e posso ver a linha reta que se faz até o chão, penso em engenharia e constução, na perfeição necessária dessas duas habilidades. Eu não tenho habilidade nenhuma, talvez a habilidade de fracassar em tudo, mas o último grande momento da minha vida seria algo sem precedentes, eu não fracassaria. A impossibilidade de fracassar se dava pelo fato de estar, literalmente, a um passo da morte sendo esta o objetivo principal. Se há um objetivo principal, podemos deduzir que existam objetivos secundários. Dois eram eles. O primeiro é morrer enrolado em uma bandeira americana, esta já enrolada em meu corpo. Tive essa idéia lendo uma revistinha dos Vingadores, mas lá o cara que ia se matar queria chamar a atenção para poder mostrar seu novo invento. Eu queria apenas morrer. A segunda era atrair o máximo de gente, mídia e autoridades possíveis. Já faziam 4 horas que eu estava lá, o vento e o frio me faziam tremer. A lua estava alta no céu, ela me iluminava de forma pálida e descompromissada... "Você bem que podia cair na Terra." penso, enquanto desvio meu olhar pra baixo para ver se tem alguém.
Um helicóptero passa por mim, vejo um faixo de luz. Olho direto para o alto e posso ver que se trata de um aparelho da polícia, o que pra mim está ótimo. Ouço sirenes e alguns minutos depois, o clamor da multidão. Olho pra baixo e nada vejo na rua, apenas pequenos faróis de carros indo e vindo. Todo o barulho vem da parte de trás do prédio e corro para lá. Uma multidão na rua se forma. As pessoas olham pra cima, acenam e gritam. Vejo bombeiros e policiais... a cena impressiona meus olhos. Vejo que algumas pessoas levam cartazes, que não consigo ler, e tudo isso demonstra que a coisa está indo além do que eu havia imaginado. "Finalmente fiz algo que deu certo!" me regozijo pelo espetáculo que proporciono. Carros de emissoras de televisão estão parados nos arredores. O flash das câmeras explodem, sou afortunado por ter elaborado tão belo plano, abro os braços, com as mãos segurando as pontas da linda bandeira americana.
Ela tinha me dito que me amava. "Diogo eu sei que sempre te tratei mal, mas era porque eu tinha medo de me apaixonar perdidamente por você!" Eu fiquei pasmo, ela era a garota mais bonita e gostosa do colégio e isso me fez ficar, além de feliz pra caralho, de pau duro imaginando cenas de sexo brutal e violento com ela. Agarrei-a pelos tenros braços e na hora que ia colar meus lábios nos dela, recebo uma joelhada certeira no saco desprotegido. "Primeiro de abril! Otário!" e sai rindo com as amigas. Olho no celular e vejo que era dia 13 de março. Ajoelhado no chão com as mãos no saco e gemendo de dor vejo que os caras maus do colégio estão passando. "Olha só Maluco, está tirando onda com a sua cara! Está te imitando pra te debochar!" fala um amigo do Maluco. Tento responder que não, que nem tenho idéia do que se trata, mas apanho assim mesmo. Sou surrado por Maluco e seus amigos na frente do colégio, uma vergonha só. Tento me levantar e o diretor do colégio vem em minha direção e me expulsa do colégio, achando que eu estava molestando uma aluna, a mesma que por sinal machucou meu saco. Vou pra casa muito puto, com a idéia de assassinar toda a família. Quando chego em casa, vejo-a pegando fogo. Os bombeiros me disseram que meu irmãozinho tinha deixado o gás aberto e que meu pai fumante acendera o cigarro sem querer e sem notar que todos haviam perdido a consciência por causa do gás. "Mas como você sabe disso tudo, Sr.Bombeiro?" pergunto. "O vizinho gravou tudo em VHS." responde. Atônito faço uma nova pergunta "Mas ele não fez nada pra salvar minha família?". "Não, ele disse que a queria morta." disse secamente. Olho para a câmera que está filmando esse relato e digo "Isso é inclível!". A casa queimou junto com a família que eu ia assassinar... fracassei. No meio dos escombros, vejo que a única coisa que sobrou intacta, foi a gloriosa bandeira dos EUA, pego-a com carinho e decido me matar de forma fantástica e assim fui parar lá, no alto do grande edifício.
Dou o passo derradeiro em direção à multidão que se espreme metros abaixo. A bandeira dança ao sabor do vento que me acaricia de forma doce, como se estivesse tentando me convencer a viver. "Não posso vida, para ser lembrado por você tenho que morrer de forma sublime!" meu corpo se inclina e começo a cair. Tenho que mirar direito pra cair de cabeça, para que ela se despedace e para que pedaços do meu cérebro e do meu crânio esmagado voem nas pessoas e na lente das câmeras. Os cartazes ainda estão ilegíveis, as janelas vão passando enquanto penso "Um sucesso pelo menos Diogo, você não fracassou completamente!". Nessa hora entro em desespero. Vejo uma criança ser balançada pra fora da janela. Na medida que vou caindo começo a ver uma mão de brancura fantasmagórica segurando uma criança. Caindo eu vejo algo que me faz congelar no ar por um átimo... ali está Michael Jackson balançando seu filho pelo lado de fora da janela. Ele olha pra mim e pisca. Voltando meu rosto pra baixo, consigo ler os cartazes e eles dizem "Nós te amamos Michael", "Michael Jackson o Rei do Pop!!!", "Michael nós acreditamos em você!" e "M.Jackson INOCENTE!"!!!!!! A multidão, os helicópteros, os bombeiros e policiais, a imprensa e a mídia... os cartazes.... não eram pra mim... a bandeira escorrega das minhas mãos e fica pelo caminho, planando acima do meu corpo que cai. Antes do meu crânio se esmigalhar no chão, uma lágrima sai do meu olho esquerdo... "Eu fracassei...". O corpo completamente disfome no chão causa repulsa nas pessoas, a bandeira vai caindo devagar e cobre todo o meu corpo... mais uma vez, os Estados Unidos da América salvaram o dia.
Escrito por Diogo Bulldog às 17h00
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