Quando pequenino, eu queria ser um sapateador, não daqueles que sentem dor quando colocam sapatos, mas daqueles que dançam. "Mamãe, papai, quero fazer sapateado!" eu cantarolava enquanto imitava Gene Kelly. "Cala boca porra! Isso é coisa de viado! Você vai é fazer curso pra ser faxineiro de auto-forno da CSN!" me responderam meus pais. Não me aceitaram no curso para faxineiro de auto-forno, falaram que eu era muito delicado. Segui a minha infância toda até a adolecência querendo ser dançarino, mas o mais proximo de um que cheguei foi quando joguei "Lobisomem" onde eu era um Black Spiral Dancer. Eu era chamado de bicha no colégio, mesmo depois que o filme do Billy Elliot foi lançado. Larguei a vontade de dançar e virei uma pessoa deprimida e com alterações bruscas de humor do tipo...
- Olá Diogo, tudo bom?
- Sim, Jesus veio pra Terra para nos livrar do pecado. Sou uma pluma ao vento que acaricia a doce face da donzela.
Ou então:
- Olá Diogo, tudo bom?
- Bom é o caralho! Você tem filho ou filha? Porque pra mim não importa, como os dois com brutalidade e violência.
E assim seguiu a minha vida até que os "bailinhos" do colégio começaram a aparecer. Era igual a quando tinha jogo de futebol na educação física, todos eram escolhidos e escolhidas, Diogo ficava na beirada do campo, não querendo ser um "cheerleader", mas querendo se integrar à raça humana. Em um desses bailinhos onde tocavam pérolas dos anos 80, Diogo estava todo arrumadinho, ainda tinha cabelo e era magro e bonito (o último adjetivo é uma mentira do autor). Ainda que assim estivesse, a resposta aos seus pedidos para dançar eram sempre um sonoro NÃO, seguido de "você é muito feio!", "eu abomino gente como você!", "some da minha frente, você fede!" e coisas do tipo. No último bailinho que foi, quando começou a tocar aquela música do assovio do Scorpion, "wings of change" eu acho, me aproximei dela, da menina dos meus sonhos. Não hesitei:
- Menina dos meus sonhos, quer dançar comigo. - perguntei com embargada voz de emoção.
- Nunca que eu dançaria com um verme que nem você seu desgraçado de uma figa. Vê se desaparece seu abominável.
Achei que ela completaria a frase com "homem das neves" mas não deu tempo, logo meu arquiinimigo a tirou para dançar. Ela não só aceitou como ainda deu um molhado beijo na boca dele me dizendo "Isso que é homem."... inspirei fundo e ao soltar o ar, um gemido de tristeza. Além de ter fracassado na minha vocação para dançarino, ainda me era negado o direito de ser bonito e bem quisto pelas mulheres, que recusavam-se a me dar o prazer de seu corpo colado ao meu para que meu pau ficasse extremamente duro. Saí da festa antes do parabéns e aproveitei para quebrar o vidro do carro dos pais do aniversariante de raiva, fugindo logo em seguida. Por anos eu não seria visto pela sociedade. Nem meus pais, nem meus amigos e nem ninguém. Durante anos, vaguei pelo mundo aprendendo vários tipo de dança e me misturando com as pessoas mais baixas desse mundo.
Retornando do retiro espiritual, que terminou quando aprendi a dominar o flamenco na Espanha, sou um dançarino famoso no underground, conhecido como Dois Ogros "O Rebolador". Um dia visitei uma gafieira da vida e para minha perplexidade, lá estava a Menina dos meus sonhos. Ela era a Dama da Noite juntamente com Arquiinimigo, que como o nome diz, era meu arquiinimigo. Os dois ficavam dançando no meio do salão. Resolvi então colocar em prática meus ensinamentos. Durante uma semana preparei tudo para o meu retorno e chegado o dia, me revelo. Fantasiado de Vega, do Street Fighter, entro e um tio meu chega e me diz "Que entrada triunfal hein Diogo!". Eu estava de máscara, mas ele me reconheceu, a máscara caiu e me revelou. Aponto para a Menina dos meus sonhos e pergunto "Quem são essas duas lindas meninas aí no seu colo?". Ela perplexa ao me ver responde que são suas filhas com Arquiinimigo. Eu pensava em dançar e conquistar, mas vou ter que correr e explodir e assim faço. Saio correndo e apertando um botãozinho, mando a gafieira toda pelos ares. Entulhos voam e se chocam contra meu corpo... sinto pedaços de carne e pele grudando em mim. Inspiro bem fundo e ao soltar o ar, um gemido de prazer. Ao meu lado passam alguns garotos cantando uma alegre música "Eta! Eta! Eta! Que meu pau vire buceta!". Eu consigo apenas sorrir da ironia.