A dia amanheceu e Diogo, após uma noite de lindos sonhos onde ele era soberano, bem sucedido e bem quisto, acordou. Acordou de um sonho onde ele tinha tudo o que amava, dinheiro e poder. Já ao abrir os olhos deu-se conta da sua vida miserável, o cheio de carne podre da cozinha, o banheiro de rodoviária a dois passos dele, uma vida de desgraçado. Porém o dia prometia, duas entrevistas marcadas e Diogo estava pessimista, mas sabia que na rua iria ver mendigos com fome, crianças chorando, mutilados e doentes mentais..."A vida não pode ser tão ruim." ponderou. Enquanto se arrumava, acompanhava o noticiário na tv e não estavam falando mal do Lula, Diogo abaixou a cabeça e quase chorou. Sua cara doía porque na noite anterior teve que fazer a sua já grande barba na gilete, o que demandou quase uma hora. Desistiu no meio do caminho, deixando um inosso cavanhaque de bicheiro. Todo arrumadinho e cheiroso, Diogo até parecia gente de verdade e não o mendigo que sempre aparenta ser. Nada na geladeira, fome e a primeira frustração do dia..."Meu Deus do céu... que fome do caralho!".
Na rua, como pensou antes, viu mendigos e crianças famintas, viu também deficientes físicos mas nenhum deficiente mental e isso o deixou nervoso, seu pessimismo continuou o mesmo de antes e não o deixou. Ainda tentou achar alguma deficiência mínima no mental das pessoas, mas todas que ele viu não tinham nem sequer um cacoete. "Porque me trata assim vida cruel?" ele se perguntava entrando no prédio. Chegou em cima da hora e a menina já estava organizando as pessoas para a entrevista, Diogo foi o último da fila. Não tinha levado nenhum livro e por não ter dinheiro, não tinha um PSP para jogar e nem Ipod para ouvir, a pilha do seu cd-player velho de guerra tinha acabado. Roendo as unhas de ansiedade, Diogo via as pessoas sainda da sala, algumas sorridentes e outras tristes, mas confiantes de que dali a alguns dias conseguirão seus empregos. A um ano Diogo está lá, no desespero do desemprego e sabe que ninguém o irá querer. Assim sendo começou apensar, "Ninguém me quer, nem pra empregado, nem pra chefe, nem pra namorado, nem pra faxineiro, snif... nem pra morto!" e seu nome é chamado.
"Bom Dia!" diz ele de modo cortês para a sua entrevistadora... ela retribui. A entrevista percorre normalmente e ele fala sobre suas qualificações que todos sabem, estão aquém de qualquer outra pessoa no mundo. A entrevistadora parece não ter gostado do pobre rapaz pois o olhava com alguma severidade, o cavanhaque de bicheiro estava fazendo um enorme estrago na imagem dele. Chegando ao final da entrevista, a moça termina de arrasar com o dia do mendigo, ela enfia ainda mais fundo a faca no seu coração. "Diogo, a vaga de vendedor é para pessoas até 30 anos, mas vou deixar o seu currículo e sua entrevista no nosso banco de dados." ela diz. Ele olha para o horizonte e depois pra ela "Mas eu tenho 26 anos... está aí no currículo." Ela se atrapalha toda com os papéis e visivelmente constrangida tenta se corrigir. Diogo faz aquele olhar de derrotado voltando a face novamente para o horizonte confortando-a "Não liga não, já estou acostumado com esse tipo de coisa." Ela pede desculpas sinceras e Diogo a consola pelo seu erro mais uma vez, reiterando que ela não é a única a cometer esse erro. Se levanta e vai embora completamente arrasado apesar do seu bom coração mais uma vez ter se revelado.
Completamente triste, foi para a outra entrevista. Nessa porém, nada demais aconteceu pois era uma pequena prova e não uma entrevista. Aliviado mas completamente triste e desiludido da vida pelos acontecimentos anteriores, Diogo perdeu qualquer pudor e começou a gastar dinheiro. Foi no sebo e gastou 15 reais em livros, 2 pra falar a verdade e mais 5 reais e sessenta centavos no Hobby com um bom suco de manga e um joelho. Chega em casa e se desespera... está duro igual pedra e a conta de luz vence amanhã. A vida era Ulisses (Odisseu) querendo a armadura de Aquiles e eu era Ajax desejando o mesmo. A vida me levou ao suicídio e se vangloriou com a armadura.