PÉ
Determinado a ser lembrado em sua passagem pelo planeta, Diogo tinha resolvido que iria elogiar o pé de alguma linda moça que porventura encontrasse. Na manhã daquele domingo de outono, de brisas frias e úmidas, começou a se arrumar pensando no pé da moça. Tomou um belo de um banho com as moscas e lacraias que vivem com ele, penteou o cabelinho que não tem, vestiu a boa roupa que, acreditem, também não tem. Escovou os dentinhos com afinco e cortou as unhas, lixando-as nas bordas para que ficassem redondinhas. Caneta, documento... chaves... e lá se vai o pequenino menino. Iria prestar concurso público para tentar sair do lamaçal que estava, atolado em dívidas, sem prazer pela vida, comendo podre comida e com a casa tal qual necrotério abandonado. Vai pensando na vida, sempre nas mesmas coisas de outrora. Uma bela e amada mulher, duas filhas, às deusas semelhas no aspecto, de nome Dana e Chloe, homenagem para as suas duas heroínas dos seriados de TV americanos... um emprego digno, dinheiro e poder. Na simplicidade do seu desejo pensava já que, bastando para ter tudo o que deseja, ter apenas o dinheiro e o poder. Sem nenhum dos dois, ele amargurava a solidão, o escárnio, o abandono e a falta de carinho. Amigos não mais tinha pois, feio e duro como estava, nenhuma pessoa queria se aproximar dele e os que antes eram próximos, o abandonaram. Ninguém o respeitava. Sempre era o último a ser escolhido, sempre furavam fila exatamente na sua frente pois sabiam que, o puro coração do menininho, nada faria para contrariar... mulheres cuspiam na sua cara e o xingavam com severidade e com nomes impronunsiáveis. A derrota era total. Nesse turbilhão de pensamentos e lembranças dolorosas, viu quando no colégio de tudo era acusado, quando na verdade estudava com fervor para o poder e o dinheiro, para a ganância e a cobiça. Sentiu a vergonha da idade avançada, ainda que fosse um pequerrucho no contar dos anos. Quando iam brincar de Jaspion, ele era o Mia... de Changeman, ele era o Gyodai ... de Cavaleiros do Zodíaco, pasmem, ele era o Chun! Sempre perdia no Jyhad e quando começou a ficar bom no jogo, seus "parcos amigos" pararam de jogar. Totalmente triste, criou com os "parcos amigos", o pique-pirú e o pique-cu e sempre inventavam que Diogo estava roubando quando passava o pique-cu pra alguém, assim, ele ficou dando bundada no pirú dos outros até os 18 anos. Depois dos 18, ficou sendo zuado o resto da vida porque ele tentou durante anos passar o pique-cu pra alguém e não percebeu que o estavam sacaneando... ali mais uma vez provou ser inocente e puro o coração do menininho.
No caminho até o metrô, esses pensamentos fizeram Diogo chorar. Já no trem, ia a rezar para que este descarrilhasse e que ele e todos que ali estavam morressem de forma violenta, para que o pessoal do IML perguntasse "Esse pedaço aqui é de quem?", "Vê se esse braço encaixa nesse tronco disforme aí!", "Caralho! Eu achei um caralho!" e que ficassem brincando de "batata-quente" com o fígado de alguém. Nada aconteceu e ele ficou muito mais triste e desiludido do que antes. Porém, percebeu inúmeras moças de lindos pés e determinado a ser lembrado por alguém no mundo, foi ter com algumas moças... mas tal qual íma aos polos iguais virados, ele as repelia. Abaixou a cabeça em resignação e foi para o local do concurso indo direto para a recepção pegar a prova. Quando chegou lá perguntaram, "O seu nome por favor?" e ele respondeu com voz chorosa "Diogo...". Riu-se o mesário que repetiu "O que Dois Ogros?" e todos que lá estavam se colocaram a gargalhar em frenesi. Foi para a sala e sentou-se na primeira fileira, por sorte, de frente para a mesa de uma lindíssima mesária. Decidiu então que, após o término da prova, elogiaria os pés daquela moça.
Quando o relógio marcou 10:09 da manhã, terminou a prova e chamou a mesária a cochichar "Fabiana, você tem os pés mais lindos que esse meus olhos já tiveram o prazer de ver." e ela respondeu "Sai pra lá porra, verme imundo!". Saiu feliz da vida o menino. Com certeza ela ia falar sobre isso com as amigas, familiares e conhecidos, tipo "Você acredita que um cara feio pra caralho e com semblante de fracassado total chegou pra mim depois da prova e falou que meus pés eram lindo? É mole?". A vida do pequerrucho mendigo estava assegurada e foi ter com a sua mamãe pois dela era o dia. Achando-se Gene Kelly em pessoa, saiu a bailar pela rua, com a vida norteada pelo reconhecimento, agora cheio de si viu cor nas coisas... rouxinóis cantavam e pardais cagavam, macacos saboreavam bananas e crianças nasciam orfãs, a sua existência agora tinha sentido.
Fabiana, após a longa manhã de trabalho, chega em casa exausta e se joga no sofá esperando a comida quentinha da mãe. Sua irmã, muito amiga sua, vê a sua impaciência e logo pergunta "Alguém elogiou o seu pé hoje?". Fabiana não entende o porquê da pergunta e pensando e refletindo diz baixinho como a esconder algo "Não...". Em algum lugar da cidade falecia um mendigo menino.
Escrito por Diogo Bulldog às 21h14
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