A chuva caía sem parar e o frio estava intenso mesmo para os padrões cariocas. Saio de casa sem guarda-chuva e com medo de chegar atrasado à entrevista que farei. O sapato vai a escorregar nas pedras portuguesas que constituem o caminho até o metrô. Penso se estou levando tudo... mochila, currículo, dinheiro, cartão, caneta e no imo peito a desilusão antecipada. Não tinha dormido nada durante a noite e fiquei a me deliciar jogando "The Godfather" e "Icewind Dale 2" e lendo "Odisséia"... uma típica noite insône. Já não mais acalentando qualquer reação ao fato de ir a uma entrevista, já calejado por tantas que me fizeram chorar. A chuva caía aborrecida e eu escorregava nas pedras da calçada.
O metrô cheio me irrita, guarda-chuvas molhados encostam em mim, pessoas falam alto e usam rádios abertos. O caos que se vê é desolador e ajuda em muito a ruína do meu ser. Pára o trem na estação do meu destino e a multidão sai em uníssono, e assim vamos até a saída. Ali fico extremamente triste pois constato que todos estão indo trabalhar, estão indo ao motivo de seu orgulho e da sua honra... eu vou cabisbaixo com a chuva a me castigar em direção ao lugar que pode ser a minha salvação. Chego na hora marcada para o início das entrevistas e na sala de espera vejo a opulência do lugar. Extremamente bem arquitetado e decorado, com lindíssimos quadros e esculturas, uma mistura de antigo e moderno muito bem balanceado, um lugar de sonhos pra se trabalhar. A entrevista, marcada para as 9:00 começa lá pelas 10:00. Nesse meio tempo fortaleço a minha alma lendo os fardos de Odisseu e o modo como os enfrenta com honra e sabedoria, sempre com o objetivo de encontrar o filho Telêmaco e a bela esposa Penélope. Com a alma inspirada pelo grande herói, vou para a sala onde somos recebidos por um simpático rapaz que trabalha para uma empresa de RH. Conversamos um pouco, todos nós, e decidimos fazer uma entrevista coletiva, ali começaria a minha odisséia.
O rapaz faz uma breve introdução da empresa e o perfil dos candidatos, já ali, dos 14 que éramos, 4 desistem por não se verem de acordo com o perfil de empresa. Eu vejo ali o meu perfil, o trabalho almejado e continuo. Um a um, todos são entrevistados, vejo histórias fracas e pessoas sem objetividade, pessoas que mal sabem falar e que tremem diante do desafio. Na minha vez, com voz firme me dirijo a todos, falando pausadamente e gesticulando pouco mas de modo decisivo. Falo sobre minhas experiências profissionais, sobre meus passatempos e sobre o que desejo pra minha vida. Ao final deveríamos escolher um animal e eu escolho o meu. Minha entrevista foi extremamente positiva e divertida, ajudei em muito a descontrair o ambiente e com isso me vi como um possível candidato à vaga. Senti firmeza nas minhas palavras e no modo como me portei, diferente de outras pessoas que gaguejavam, tremiam e que, em alguns casos, tinham experiências de meses apenas em um estágio qualquer. É pedido um tempo pelo entrevistador para analisar os perfis... ele dará uma resposta sobre quem deve ou não continuar no processo seletivo, indicando que a partir do próximo processo, uma prova e uma dinâmica, o caminho estava aparentemente seguro.
Vamos para uma linda sala ao lado e ficamos esperando. Converso com as pessoas distraidamente, geralmente sou uma pessoa difícil de enveredar uma conversa e todos se juntam e conversam animadamente. Após alguns minutos somos chamados para a sala de entrevistas e nos sentamos. Seguro de mim, como nunca estive antes, sento e respiro fundo. Vejo a apreensão nas pessoas, vejo que desejam tanto quanto eu, trabalhar naquele lugar maravilhoso. Éramos 10 pessoas agora acalentando o emprego com fervor. O entrevistador nos diz "As pessoas cujo os nomes eu não citar, infelizmente, não continuarão no processo.". Ele começa a ler e a cada nome, vejo expressões de felicidade, vejo muitos "Graças a Deus!", cabeças pendendo para trás em alívio ou ainda, mãos que massageam o rosto em conforto pela boa notícia. Nove são os nomes lidos, nove entre 10 nomes. Todos olham uns para os outros em felicitações, sinto que vou chorar... me levanto, pego minhas coisas e saio da sala. Vou para o banheiro e me entrego a pranto copioso, humilhado e derrotado. O motivo de ser o único que foi proposto a saída vergonhosa me corroía por dentro, atacava o meu orgulho e minha honra, ambos já feridos de morte. Saindo do banheiro, alguns vem me consolar e deles me desvio com raiva, desejando morte, dor e agonia para todos eles. No elevador me entrego de novo ao pranto e limpando o rosto saio do prédio e pego um ônibus. Em direção a bonsucesso me dirijo, um lugar que havia prometido a mim mesmo que nunca voltaria. Vou para outra entrevista e lá chegando seguro uma lágrima. O lugar deserto, completamente aos pedaços, o cheiro de podre a me rodear. Faço essa entrevista e sou bem sucedido, mas recusarei o trabalho, já que este me impossibilitaria de continuar a estudar inglês. No ônibus vou pensando nos porquês da recusa de meu nome. Será porque sou gordo, feio, careca e com um cavanhaque de bicheiro? Para meu espanto vejo que não é nada disso, mas sim, o semblante de fracassado, a aura de derrotado que me persegue desde o nascimento. Chegando em casa me deprimo de modo lastimável.
Dos 14, 4 desistiram. Dos 10 que sobraram apenas 9 foram escolhidos e apenas um foi procurar emprego numa favela em bonsucesso. Só conseguia pensar em morrer e na morte pestilenta que desejava para os 9 que foram escolhidos. Mas se até o divo Odisseu, pastor de homens, também pendeu para o desespero, mesmo amparado por Palas Atena, porque haveria de eu também não me deixar desesperar? Continuo a minha "Odisséia", tanto na leitura, como na vida.