As histórias da Vida do Menino Mendigo


Tears for Fears

Eu tinha prometido para mim mesmo que durante toda a minha vida, a partir daquele momento, eu choraria apenas 3 lágrimas. Lógico que eu chorei quando nasci, quando era preterido pelos meus familiares e a última lágrima, antes da promessa, foi derramada pela vergonha de ser eu mesmo. A promessa foi feita diante de um espelho, onde eu podia ver todo o meu rosto deformado pelas surras que dava em mim mesmo como forma de expurgar meus males e meus pecados. As três lágimas foram nomeadas e as suas situações foram pré-estabelecidas. A primeira seria a "lágrima do vassalo", a segunda a "lágrima do amor" e a última a "lágrima do neném". Estipulei que, se uma quarta lágrima fosse derramada, eu iria a um hospiral e desligaria os aparelhos que mantivessem as pessoas vivas e beliscaria todas as criancinhas recém nascidas na maternidade... lógico que logo depois de tudo isso eu me mataria de forma espetacular. Diante de um espelho, eu prometi.

As lágrimas deveriam ser derramadas na ordem e as consequências de serem derramadas fora do lugar significariam dor e morte para outras pessoas. As equações seriam as seguintes:

Vassalo => Amor => Neném = Sucesso, vida próspera e feliz.

Vassalo => Neném => Amor = Invadir uma creche e, em uma sala fechada cheia de crianças, deixar botijões de gás vazando até elas morrerem.

Amor => Neném => Vassalo = Assassinar 6 noivas grávidas de pelo menos 6 meses não sem antes bicar a sua barriga com fúria e violência 6 vezes.

Amor => Vassalo => Neném = Estuprar mulheres recém-formadas na frente de seus namorados, desde que o relacionamento tenha começado na faculdade.

Neném => Amor => Vassalo = Matar filhos adotivos de executivos de grandes empresas.

Neném => Vassalo => Amor = Decapitar crianças que fazem malabarismos no sinal de trânsito.

Havia também o contexto em que elas deveriam ser derramadas e em nenhum momento eu poderia derramar uma lágrima fora do contexto. Se isso ocorresse tudo estaria perdido. A "lágrima do vassalo" deveria ser derramada quando eu arrumasse o emprego almejado que, além de garantir a minha dignidade como cidadão do mundo, ainda me permitiria manter as duas lágrimas posteriores. "Você está empregado Diogo." é tudo o que precisava ouvir. "Do amor Aloha!" já dizia o sábio e a "lágrima do amor" cairia quando ajoelhado no chão de um fino restaurante em NY e com um lindíssimo anel cravejado de diamantes, ela aceitasse o meu pedido. "Amor para além da vida, quer casar comigo?" e ela "Sim, meu amor, amo-o também para além da vida." assim dito prossiguiria em vida, para o objetivo final. Quando tivesse em meus braços uma linda e pequerrucha meninina de pele alva, cabelinhos claros assim como os olhos e fofa até onde vai o limite da fofura, eu choraria a terceira lágrima em sinal de adoração pela minha filhinha de nome Chloe. Deverei ter muito cuidado para, quando ela me der um sorriso radiante eu não chore uma quarta vez e ponha tudo a perder.

O contexto seria o caminho a seguir para a felicidade, mas infelizmente tudo ocorreu de forma errada. A primeira lágrima, derramei vendo Titanic no cinema, o que me causou muita dor e sofrimento. Procurei na cartilha o que aconteceria se algo assim ocorrese e percebi que não tinha pensado nisso, desesperado me internei em um hospício. Lá fui tratado com choque e não chorei em nenhum momento. Saí anos depois e resolvi testar a minha resistência. Chorei uma segunda vez ao alugar Titanic na locadora... completamente desesperado roubo o carro do vizinho e em velocidade extrema perco o controle do carro e bato em outro, não sem antes atropelar vários aposentados na fila do INSS. As ferragens entram no meu copo sem piedade, minhas pernas viram uma pasta de carne e ossos moídos, minha caixa toráxica perfurada sem dó sangra sem parar e começa a encher meu pulmão de sangue... começo a me afogar e a vomitar sangue puro. Não derramo uma lágrima até ver, passando na rua, um lindo carrão onde um casal extremamente apaixonado protege uma linda e pequerrucha meninina de pele alva, cabelinhos claros assim como os olhos e fofa até onde vai o limite da fofura, da visão do horror... choro a última lágrima ao ver a felicidade dos outros e logo depois morro sufocado pelo meu próprio eu.



Escrito por Diogo Bulldog às 14h11
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