Mrs.Anderson... I miss you.
Depois de anos sem vê-la, encontro ao acaso uma foto sua voando na minha direção... eu caminhava na praia. Pego o pedaço de papel e mal posso crer no que vejo, uma salina lágrima cai de meu rosto e se mistura com a areia já fria no fim de um dia de inverno. Lembranças de noites de sextas-feiras que passávamos juntos, nossos encontros na internet e a distância absurda que nos separava. Ela lá, feliz a ignorar a minha existência... eu aqui, triste. Sua sagacidade e inteligência, seu espírito fraterno baseados em lutas e vitórias, em caridade e amor, só não se sobressaiam sobre a sua beleza sem igual. Seu sorriso meigo, seus olhos claros e alva pele aveludada... seus cabelos ruivos, corpo divinamente dilapidado tal quam a Vênus de Botticelli, meu quadro preferido vivendo e andando pelo mundo. Caio ajoelhado na areia macia e fria e copiosmente me entrego ao pranto, desperto de um sentimento que nunca me abandonara, mesmo que eu o tenha escondido nos mais sobrios rincões do meu coração e da minha mente. Sofri todas as dores do amor naquele momento.
Determinado a encontrá-la em pessoa, me coloco a caminho de Vancouver. Vendo tudo o que tenho, não me despeço e nem digo meu destino a ninguém, me confidencio com Oneiros durante a noite e faço oferendas a Afrodite para que não se zangue quando dizer a verdade sobre a beleza daquela que amo. Sou tentado pelo Diabo a vender a minha alma em troca de tê-la para sempre. Mas prefiro ter o amor sincero e que, quando as doces chuvas de abril cessem no norte eu possa, na varanda de nossa casa de campo, sentir seu corpo se aconchegar no meu enquanto trocamos juras de amor. Quero chorar ao ver seu corpo banhado pela luz da lua, dizendo em sussuros que a amo acima te todas as outras coisas, me desculpando com Deus por amá-la acima Dele. Quando na manhã ao acordar eu vê-la chegando com pequenas compras onde sinto o cheiro de delicioso pão fresco e de queijos diversos ajoelhar-me-ei diante dela e tal qual Ulisses nas suas demostrações de afeto, abraçarei seus joelhos. Confesso tudo a Oneiros.
No caminho que fazia o navio para o Canadá, Afrodite se vê enfurecida, mesmo que com oferendas eu a tenha favorecido, por não ser vista como a mais magnânima em beleza e manda Hefesto seu antigo marido matar-me com o mesmo martelo com que forjou a armadura de Aquiles. Ao deparar-me com Hefesto enfurecido, peço que em nome do amor que nutre pela deusa pulcrícoma, eu entoe a ele uma canção em despedia à pátria e ao meu amor por aquela a quem me levou a tão longa viajem. Canto a Canção da Despedida de Beren e Lúthien:
"Adeus doce terra e céus do norte, eternamente abençoados pois aqui esteve e aqui com ágeis passos correu, à luz da lua, À luz do sol, Lúthien Tinúviel, mais bela do que pode dizer a língua dos mortais. E mesmo que o mundo caia em ruínas, que se dissolva e seja lançado de volta, desfeito no caos primordial, ainda assim foi boa a sua criação... o amanhecer,o anoitecer, a terra, o mar... Para que Luthien por um tempo existisse!"
Ao terminar vejo Hefesto imponente, ajoelhado e de forma honrosa pousando à minha frente seu martelo e sumonando sua bigorna me forja um lindo punhal. "Jamais vi tão linda canção, nem mesmo no Olimpo, morada de deuses. A ver tanto amor, da recusa vejo a insignificância da vida, forjo-te então este punhal e com ele te darei morte breve ainda que deseje a ti o amor eterno. No Olimpo terá sua morada, como menestrel de lindas canções.". Forjado o lindo punhal, coloca-o no meu colo com olhos úmidos e parte garantindo segurança em minha viagem.
Quando chego então ao porto, parto de ônibus para Vancouver abençoada e no encalço dela me coloco. Colho informações precisas e descubro seus hábitos, endereços e lojas que frequenta. Em uma noite de inverno, ainda despreparado emocionalmente para encontrá-la, de sobressalto me deparo com ela. Olho-a sem acreditar e todos os adjetivos que usei para descreve-la se vão como a vida de um ser no cosmo imenso. Fitando-me ela pára e me diz com firmeza. "Nunca te vi, mas sei que te conheço. Talvez o tenha visto em meus sonhos." sua voz é doce. "Eu há vi diversas vezes, ainda que nunca pessoalmente e em sonhos sempre nos encontramos pela graça de Oneiros... amo-te acima de todas as coisas abaixo do céu e para além dele até o infinito." digo embargado. "Mas eu não o am... não posso te amar Diogo." diz..."Como sabe meu nome?" pergunto incrédulo. "Sonhos me disse da última vez que encontrei você nos domínios dele." Sem saber bem o que dizer falo "Me dê apenas um beijo então..." e sufoco em lágrimas. "Jamais... tenho medo de amar e beijando-te, correria o risco de ter que amá-lo assim como me ama. Meu marido e minha filha me são muito caros e não gostaria de perdê-los.". Triste com o materialismo com que lida com sentimentos acima da compreensão humana e também com o seu egoísmo, agarro-a e a beijo. Agarrada a mim ela chora e aceita. Nos beijamos com amor e no Olimpo, em Valhalla, no Céu cristão e em outros palácios divinos ouço canções e vozes chorosas de emoção. Desgrudando nossos lábios olho-a com ternura e ela me pede "Por favor Diogo, amor além da vida, com perdão te peço... não se torne um fardo pra mim." Abaixo a cabeça resignado e digo baxinho "Gillian, cujo a menção do nome me faz feliz. Ainda que o medo te afastes de me amar, sou afortunado por coexistir com você no mundo. Saber que caminhei debaixo do mesmo céu que você, que o mesmo sol nos aqueceu no inverno, que ouvimos Stupid Car do Radiohead diversas vezes antes de dormir e que amalgamamos nosso amor mesmo que por alguns minutos já faz da minha existência algo grandioso. Não, jamais serei um fardo pra você." e me degolo com o Punhal de Hefesto. Caio no chão e ela ajoelhada me segura em seus braços gritando "NOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!" A chuva começa a cair fina, minha alma vai se afastanto e sem olhar pra trás, me dirijo à esfera olímpica.
Escrito por Diogo Bulldog às 15h43
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