As histórias da Vida do Menino Mendigo


O tebano Tirésias na Lua

Na longínqua Grécia, desceu até o Hades o pobre menino. Peso morto no mundo e sem valor, foi dado a ele a permissão para vagar pelo ermo sem ser incomodado, ainda que tenha pago com uma moeda o Caronte navegante. A Minos fez reverência perguntando por aquele a quem procurava e este, sapiente de todos os que lá pereciam indicou-lhe o caminho. Descendo cada vez mais e sentindo o fustigante calor dos rios de lava, ia sem medo. Atravessou deserto furioso em ventania, onde a areia o machucava e também pólos gelados com frio cortante e lá foi onde o encontrou. Prostrando-se diante do iracundo proclama em alta voz, quase perdida em meio ao vento gélido "Oh adivinho e profeta, a quem as respostas fluem em verdade a todas as questões, mar de fogo e oceanos de areia vaguei e na brancura vasta de frio polar e vento maligno encontro-te em trono rochoso tal qual grandes reis bárbaros. Digno é de aí estar e aqui venho a te implorar, oh tebano Tirésias, que me responda sem faltar com a verdade que a ti, por Zeus foi dado a revelar." Ao terminar de dizer as palavras aladas, o vento tornou-se ainda mais forte fazendo com que o menino se agarrasse aos joelhos e se recurvasse de dor. Disse-lhe então, com voz retumbante e com o tom da sabedoria "O que desejas saber de tão importante, Diogo filho de homens e que aos deuses nada semelha, que te colocas diante de cruzada malfadada, descendo até o próprio domínio de Hades? Jamais em tempos que aqui estou vi tamanha vontade na procura do saber." Levantando o rosto Diogo tomba diante do frio polar e vivente que é em mundo morto, não perde a consciência por mais severa que a dor seja. Tombado, olha Tirésias como um gigante e mesmo se sentindo pequeno diante dele proclama "Venho com dúvida que te parecerá banal, mas que a mim é de dor intensa e mal me causa a todo minuto que vivo. Por que tebano Tirésias, cujos os olhos contemplou a nudez de Atena, Deus me abandonou? Por que abandonou um filho e a outros ama com fervor inigualável?" Levanta o que de tudo sabe e pede 7 dias.

Durante sete dias Diogo ficou estatelado no chão, com fome, frio e sujo. Assaltado por pesadelos que vira acordado, pois aos viventes não é dado dormir onde os mortos caminham e pagam seus pecados, entrou em desespero e culpou Deus por seus males. Achava de vilania ímpar todo aquele sofrimento auto-imposto e nem ao vê-lo sofrer daquele jeito apenas para obter uma resposta, Ele veio acudí-lo. Diogo rogava pragas quando no sétimo dia volta Tirésias com o ar cansado. "Tens a resposta de minhas questões mestre adivinho?" perguntou Diogo em estado deplorável de desespero e agonia. "Desde que me perguntaste, já eu sabia a resposta. Em seu coração, vi mais afrontas ao Criador do que palavras de carinho, mais negações do que aceitações, mas ódio do que amor e ainda assim a resposta era que Ele não te abandonou e que ainda agora te ama com fervor, mas sim você a Ele abandonou. Já predizendo os horrores em que usaria Seu nome enquanto aqui estivesse, construi para ti ferrolhos e correntes inquebráveis... no alto dessa montanha há uma paredão de rocha nua, gelada que até queima e com lascas que cortam como navalha, lá será dependurado e com o vento balançarás de leste a oeste onde as navalhas irão expurgar teu ódio. Até o dia do julgamente final, será o único que aqui vive realmente." Bestas aladas o pegam de imadiato e o carregam para o alto da montanha e lá prendem o probre menino nas grossas correntes. A rocha gelada queimava a sua pele quem grudando nas partes lisas com o vento eram descarnadas, em outras partes lascas cortavam músculos e tendões... assim foi até o fim dos tempos onde se iniciara o Juízo Final.

Sendo o primeiro a ser julgado, Diogo entra na esfera divina carregado nos braços de Tirésias. Seu corpo todo deforme apenas tremia em regozijo por se desfazer das dores eternas. "Pai..." disse o tebano, "tenha piedade deste, pois testemunha fui de seu sofrimento e por diversas noites ouvi seu choro e com ele e por ele também chorei. Julgue-o como quiseres, pois estás acima de tudo o que existe, ainda que o culpe que o faça pagar de outras formas, mas não pela dor." Deus no trono divino declara o menino culpado dele ter amado Gillian mais do que Ele e como castigo o manda ler todos os livros do Sidney Sheldon e do Paulo Coelho e que, quando acabar de lê-los, que os leia novamente e assim sucessivamente... Diogo começa a ter espasmos violentíssimos e a chorar copiosamente. Começa a gritar "Montanha! Eu quero voltar pra montanha!" Tirésias olha horrorizado para o Pai, mas acata o julgamento e emocionado, entrega Diogo para os anjos executores. "Adeus meu irmão e boa leitura."

"Você me perguntou 'O que aconteceria se eu continuasse a culpar Deus por meus problemas?' e aí está como é a verdade futura sem a minha interferência." disse um ser alto, de cabeça um pouco desproporcional e careca como eu. "Obrigado Uatu, não sei o que faria sem você. A partir de agora, vou amar Deus acima de todas as outras coisas... só espero que Gillian não fique com ciúmes." Uatu olha pra Diogo com um pequeno riso no canto da boca e diz pausadamente "Eu sou o Vigia, meu dever e meu fardo é observar sem jamais interferir." Diogo arregala o olho e pensa em voz alta "Peraí!!!! Mas você só observa! Você não é profeta como Tirésias!!!!" Uatu começa a gargalhar e em meio a suas risadas diz "Pois é, te enganei esse tempo todo! Outra coisa, você tá na Lua, pode tratar de morrer sufocado." O pequenino menino olha para si mesmo e para o ambiente em que se encontra... vê que está mesmo na Lua e olha demoradamente para a Terra azul que nasce no horizonte... logo depois, morre realmente sufocado. Pelo menos ele morreu ao lado da bandeira dos Estados Unidos da América.



Escrito por Diogo Bulldog às 11h54
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