E então Diogo chegou em uma enorme bifurcação. Olha para trás e vê o longo caminho percorrido... 27 anos até aquele ponto. Nenhum sucesso, sem emprego, renegado. Alguns anos em que compartilhou com alegria um grande amor, este ainda no peito dolorido, e só. Para ser querido era um perfeito palhaço e seu humor ácido angariou alguns amigos... logo estes casaram-see foram felizes, seu grande amor se perdeu e sua família se cansou de seus fracassos. Sobrou então a solidão, o desprezo... as feridas que não cicatrizavam, as dores que não cessavam e o seu próprio reflexo no espelho a lembrar sua falência moral. Deprimido e corroído pelo ódio por si mesmo, via rancor onde havia amor, na visão de uma família feliz, desejava a morte dos filhos... no casal feliz na entrada do cinema, câncer e estupro, na paz só enxergava dor, peste, fome e morte. No espelho, mais uma vez, via-se moralmente falido. Olhando para trás daquele caminho nebuloso, tenta achar a luz que um dia teve em sua vida, hoje apagada e perdida em seu coração e na memória daqueles tempos, a tortura e a atordoante sensação da felicidade, esta último ofuscada pelo profundo sentimento de ódio. Cai de joelhos a chorar ao perceber o peso morto que era no mundo... não fazia parte da engrenagem que é a sociedade, não produzia e apenas consumia, não gerava nada a não ser palavras que ninguém nunca leu. "Amei intensamente pelo menos." disse ele agora olhando pra frente e ali vendo a enorme bifurcação.
Diogo percebe então que agora está diante do seu destino. Um caminho por onde veio e a sua frente os muitos a trilhar... mas pra ele só haviam dois caminhos a frente. Um levava à morte e o outro a uma longeva vida desprovida porém, de qualquer felicidade. Percebe então que não há caminhos para a felicidade em sua vida. No caminho ao qual veio, as partes felizes eram acidentes de percurso, com durações variadas. Viu muitas pessoas em sua vida que tinham mais felicidade do que o contrário e outras tristes mas resignadas. Diogo não era resignado e não aceitava ter sido amaldiçoado com todo o tipo de infortúnio. Para cada problema de sua vida, a solução era também, problemática. Ele é um ser extremamente tímido, mas sua felicidade está diretamente ligado a ter alguém a quem amar. Amou uma pessoa mais do que a si mesmo, mas seu egoísmo e sua letargia desmacharam tudo. Aflorada a sua depressão, segue-se a obesidade e a tristeza... tentando fugir e recomeçar a vida em outro lugar, fracassa porque sua vida toda assim foi e nenhum país o quer. As pessoas o chamam e ele não escuta... não consegue dar prazer a uma mulher, sua anti-socialidade o tolhe da convivência e sua auto-estima o afunda ainda mais no fundo e tímido não achade novo o amor, fator preponderante para a sua felicidade. Tentado então fica em escolher o caminho que leva a morte. Morto não sofreria, mas um de seus maiores medos se confirmaria, o de morrer no esquecimento.
Ainda ajoelhado, faz algo que a muito não fazia, reza. Faz uma oração que apieda o coração de um viajante que ali perto passava. Ele tinha o cheiro empoeirado do tempo, um manto velho e um grande livro acorrentado ao pulso. "Por que reluta em escolher um caminho?" pergunta o viajante "Dúvidas o corroem ou o medo do erro?". Diogo olha pro viajante e diz "Eu sempre erro, todas as escolhas da minha vida me trouxeram até aqui, se da morte escolher o caminho, terei outros a escolher?". "Outros caminhos terá, mas a todos o levarão a morte nos diasque se seguirem. Escolherá portanto a forma da morte." responde. Pensativo, achou a idéia um tanto interessante. Se escolhesse morrer de forma espetacular, poderia de fato ser lembrado nos jornais que, arquivados, teriam ali sua história... bane-se o esquecimento. Ainda em dúvida, pergunta o pobre menino "Do outro caminho oq eu posso esperar? Vida longa desprovida de felicidade?". A voz retumbante e calma do viajante sussurra "É o que se diz. Mas saiba que a vida longa, não trará redenção, trilhará pelo abandono, dor, doenças e fome... e no fim, a inevitável que leva a todos, sejam ricos ou pobres, negros ou brancos e antagonismos afins desde que estejam em vida. Não conhecerá de novo o amor, os que um dia conheceu, aqui não estarão, assim como sua família. Perecerá apenas no fim de uma vida longeva e nunca antes disso, não importa o que faça.". Após dizer essas palavras foi-se o viajante, deixando Diogo na dúvida entre a morrer e viver.
Depois de um tempo, Diogo se colocou de pé, esperando que dali a alguns segundos desse um passo para um lado ou outro. Respirou fundo, para a esquerda a morte, para a direita a vida de merda. Ponderava se não valeria apena viver pelo prazer carnal, mesmo que fruto apenas de masturbação, viver do abuso de drogas roubadas de mendigos ou compartilhando um pico, carreira, baseado ou copo de algum filho-da-puta pelo país de merda que ele vivia. A garantia de vida longeva com morte apenas no fim, levava-o a ponderar o abuso de crianças e estupro, ambos sem proteção, espalhando assim, doenças e morte por onde passasse. Mas pensou também em prisão, nesse caso, de estupro ele próprio seria a vítima. Pensando apenas no prazer carnal como forma de afastar os sentimentos e os penosos momentos que teria até o fim da vida, pensou em mulheres com aids e doenças sexualmente transmissíveis, pensou em obesas mórbidas, mulheres que ninguém queria, necrofilia e animais. Nunca iria amar de novo, mas de falta de prazer carnal não sofreria. Pensando então nisso, deu o passo a direita, uma vida de merda recheada de prazer carnal.
No fim da vida, no fim do caminho, lá estava Diogo que em nada lembrava o já esfarrapado homem que era antigamente, estava agora pior. Não houve prazer carnal, não houve aidéticas, obesas mórbidas ou mulheres que ninguém queria. Nos primeiros dias daquela vida que desejou ao dar o passo a direita, o mundo foi assolado por uma ecatombe nuclear, biológica e química mas ele permaneceu intacto. Pereceram humanos, animais e plantas, os mares secaram como também os rios. Teve tempo de praticar necrofilia, mas logo os corpos se decomporam e os vermes machucavam seu pau necrosado. Vagou então triste pelo mundo, com fome, doente e sem alguém pra chamar de amor. Andou a pé até os Estados Unidos da América e lá, aos pés do Monte Rushmore, agonizou...
Diogo então acorda com o choro de um bebê e vê ao seu lado na grande cama de casal, uma linda mulher. Seu corpo branquinho salpicado de pintinhas surge debaixo do edredom, seus olhos azuis o olham com verdadeiro amor e ela diz "Eu te amo!". Diogo levanta e uma linda menininha vem abraçá-lo chamando-o de papai, o bebê no berço olha pra ele e para de chorar abrindo um sorriso. Diogo chora e abraçando as três diz que as ama. Mas tudo fica negro de novo e no fim do caminho está Diogo que logo ao seu lado vê o viajante, que com uma grande borracha apaga as últimas frases do grande livro acorrentado ao seu pulso e diz com um sorriso no canto da boca "Ops!" e enfim escreve "...e lá morreu."