O fracassado menino acabara de resolver, "Morrerei de câncer de pele.". Tinha pego uma grana emprestada com os familiares para estudar fora. Teve que pedir na cara-de-pau mesmo porque ele, além de ser um fracassado retumbante, ainda era pobre e desgraçado. Ele tentou realmente estudar fora, mas todos os países negaram visto pra ele menos um, o Sudão. Desesperado pra sair do Brasil, aceitou o visto e foi pra lá. Já que ia pro Sudão, um lugar desértico, resolveu que lá, pegaria o câncer de pele. E aqui estamos depois de sobrevivermos à macabra guerra civil que rola naquele país.
Bom lembrar que antes de ir para o deserto, Diogo comeu várias prostitutas infectadas para se garantir de morrer. Nada de tiro na cabeça, nada de envenenamento ou pular do prédio, queria morrer de doença, em especial o câncer mencionado. Fez então todo o tipo de exame na barraca da Cruz Vermelha e disseram que ele estava infectado com várias paradas bizarras, inclusive cólera e tuberculose. Feliz, seguiu o menino entre os tiros, bombas e gente morta, crianças magrelas com moscas nos olhos e tudo aquilo que ele vira nas capas da National Geographic. Não que ele estivesse feliz com aquelas crianças, mas Diogo era tão ruim que não tinha mosca no olho e isso o deprimiu... mas não a ponto de tirar-lhe a parca felicidade de estar infectado. Parando no limite entre a cidade e o deserto, perguntou a um velho ancião, que na verdade era uma atração turística por ser o único ancião do país, já que a expectativa de vida lá era de 30 anos, se ele se importava de morrer. O ancião, cego por falta de vitamina e com a pele grudada no osso, porém sem moscas nos olhos, respondeu que não. E lá se foi o último Ancião do Sudão, porque Diogo o matou por nada e sem o menor sentido. Seguiu então para o Grande Deserto.
Seguindo sempre pro oeste, Diogo ia andando na areia fofa e absrudamente quente do lugar. Teve miragens iguais as de desenho animado, mas dizia não a elas. Procurava andar sempre na crista das dunas pra não pegar sombra nenhuma, afinal de contas, ele queria radiação no seu corpo. Mas em dado momento, uma luz brilhante chamou a sua atenção. Correndo até ela se deparou com a Lâmpada Mágica do Gênio. Era de ouro fulgurante, cheio de pedras preciosas e cheia de detalhes entalhados. Diogo sabia que era a Lâmpada Mágica do Gênio, mas se esqueceu de como tirá-lo de lá. Lógico que esqueceu, ele era burro pra caralho e nunca entendeu a história do Aladin e os 40 Anões, pois achava que tudo não passava de uma lorota contada por Robson Crusoé na Ilha da Fantasia. Porém notou que um dos lados da Lâmpada Mágica do Gênio estava sujo e esfregou para limpar. Eis que surge o Gênio Mágico da Lâmpada em todo o seu esplendor e glória. "Olá sou o Gênio, 3 desejos você tem." disse ele educado. "Eu sou o Diogo Seu Gênio, muito prazer. Meu primeiro desejo é que meus inimigos morram de forma agonizante e que sofram horas de horror com o bafo da morte no cangote." disse também educado, o pobre menino. No Brasil, seus inimigos bateram de carro e ficaram presos nas ferragens... outros tiveram pedra nos rins antes de terem um ataque cardíaco... outro viu a família morrer carbonizada e sofrendo horrores, se jogou também nas chamas. O Gênio era tão gente boa, que também matou todos aqueles que viriam a ser os inimigos do Menino se ele continuasse a viver.
O segundo pedido foi ainda mais devastador, Diogo desejou que todas as pessoas felizes do mundo sofressem tudo o que ele sofreu na vida. Abruptamente, as pessoas do mundo ficaram tristes e começaram a fracassar, perderam seus empregos, sua vida sexual se tornou nula... o simples fato de existir era uma dor profunda. Passaram a ser chacotados por aqueles que já eram filhos da puta antes. Muitos se mataram, outros se entregaram ao vício em antidepressivos, internados em hospícios foram aqueles que não aguentaram tamanha dor e sofrimento... porém, todos agora respeitavam o que Diogo os tinha dito, pois antes eles zombavam de sua condição de sofredor e depressivo, dizendo que ele era fraco, que tudo era uma grande cena para que os outros sentissem pena. Diogo mostrou o verdadeiro herói que era, pois passara 27 anos naquele horror e nunca sucumbira, não usava drogas e nem se afundava na bebida para escapar da dor, enfrentou tudo de frente, apesar de sempre fracassar, até mesmo quando resolveu morrer, foi heróico. Ouviu o clamor do mundo a Deus, ouviu o choro e a agonia das pessoas... se sentiu muito bem com tudo isso, agora todos eram iguais entre si. Cansado, Diogo resolveu voltar pra cidade pra ver se estava com câncer de pele.
Na barraca da Cruz Vermelha, fez alguns testes com médicos europeus muito tristes que estavam agora viciados em morfina para apaziguar as dores da vida... ficou constatado que ele não tinha nada. Riu, pois mais uma vez tinha fracassado. O objetivo não tinha sido alcançado mesmo que ele estivesse todo queimado pelo sol. Apesar de ter um monte de doenças em seu corpo, morrer delas o faria uma pessoa ainda mais infeliz. Olhou então com muito carinho para o gênio e enfim pediu. "Gênio, por favor, quero morrer de câncer de pele." disse e pela primeira vez na vida, teve algum sucesso.